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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A MORTIFICAÇÃO DO PECADO

OWEN, John. A mortificação do Pecado: um clássico do século XVII. São Paulo: Vida, 2005.
                                                                                                                                 
Introdução

            (...). Converti-me, ou seja, cheguei ao Senhor Jesus Cristo com um compromisso decisivo, necessitado e ávido (desejo voraz) do perdão e da aceitação de Deus, consciente do amor redentor de Cristo por mim e de seu chamado pessoal a mim, no meu primeiro trimestre na universidade, há pouco mais de meio século.
            O grupo que me alimentava espiritualmente era de estilo fortemente pietista[1] e não me deixou dúvida alguma de que o mais importante como cristão era a qualidade de meu andar com Deus – e nisso, naturalmente, tinham toda a razão. Eram, no entanto, um pouco elitistas: sustentavam que somente cristãos evangélicos bíblicos poderiam dizer algo que valesse a pena ouvir a respeito da vida cristã.
            Eu escutava com grande expectativa e emoção os pregadores e os mestres que o grupo trazia toda semana, sem jamais duvidar de que eram os melhores mestres da Grã-Bretanha, talvez do mundo inteiro. Caí das nuvens. Hoje, fica em aberto se o que eu pensava ouvir era o que realmente comunicavam, mas a mim parecia que diziam o seguinte: “Existem dois tipos de cristãos, os de primeira e os de segunda classe – os espirituais e os carnais” (1 Coríntios 3:1-3).
            Os primeiros conhecem paz e alegria duradouras, segurança interior constante e vitória contínua sobre a tentação e o pecado de uma maneira que a segunda categoria não experimenta. Nesse sentido, os que desejam ser úteis a Deus precisam tornar-se espirituais. Era um adolescente solitário, nervoso e introvertido, (...), tive de chegar a conclusão de que eu ainda não era espiritual. Mas queria ser útil a Deus. O que fazer, então?

Solte as Rédeas e deixe Deus agir

            Disseram-me que havia um segredo para elevar-se da carnalidade à espiritualidade, espelhado no princípio: “Solte as rédeas e deixe Deus agir”. Lembro-me de um pastor radiante, que num púlpito de Oxford, reforçava esse princípio. (...). O modo de encher-se do Espírito, conforme fui aprendendo, era o seguinte: primeiro, o cristão deveria negar-se a si mesmo. Jesus exigia isso de seus discípulos (Lucas 9:23).
            Nesta passagem do Livro de Lucas, Ele deixa bem claro que se referia à negação do eu carnal, isto é, a obstinação, a autoconfiança arrogante, o egoismo e a egolatria, a síndrome adâmica na natureza humana, o padrão egocêntrico de comportamento arraigado em aspirações e em atitudes contrárias a Deus, atitudes cujo nome comum é pecado original.
O que eu parecia escutar, porém, era um chamado à negação do eu individual para que pudesse ser dominado por Jesus Cristo de tal maneira que minha experiência presente de pensar e de desejar se tornasse algo diferente, uma experiência do proprio Cristo vivendo em mim, ativando e operando meus pensamentos e minha vontade. Dito de outra forma, parecia mais uma fórmula de possessão demoníaca do que o ministério do Cristo que em nós habita segundo o Novo Testamento”Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20).
Cantávamos o seguinte cântico: - Quem me dera ser liberto de mim mesmo, querido Senhor, Quem me dera perder-me em ti; Quem me dera não ser mais eu, mas Cristo que vive em mim!  Eu cantava esse cântico com toda a sinceridade, de acordo como o sentido que acabei de definir.
O restante do segredo estava vinculado ao binômio: consagração e fé. O primeiro significa entrega total da propria vida, entregar cada parte do ser ao senhorio de Jesus. Mediante a consagração, o indivíduo se esvaziaria de seu eu, e o vaso vazio  se tornaria automaticamente cheio do Espírito, de modo que o poder de Cristo nele estaria pronto para o uso.
Paralelamente, com a consagração, viria a . Que se explicava em termos de confiar no/em Cristo que em nós habita em todo momento, nao só para pensar e escolher em nós e por nós, mas também para lutar em nosso favor e para resistir a tentação. Em vez de enfrentar a tentação diretamente (de lutar com as proprias forças), devemos entregá-la a Cristo e confiar nele para vencê-la. Assim era a técnica da consagração e fé conforme eu entendia.
Mas o que aconteceu? Fiz uma raspagem em meu interior, figuradamente, para ter certeza de que minha consagração era completa, e esforcei-me para “soltar ás redeas e deixar Deus agir” quando a tentação se fazia presente. Não sabia que Harry Ironside, pastor da Igreja Memorial de Moody, em Chicago, havia caído em completo esgotamento mental por tentar alcançar um padrão de vida mais elevado (talvez, igual aos herois da Fé ou Reformadores, por exemplo; acréscimo nosso) da mesma forma que eu tentava na ocasião.
Tudo o que eu sabia era que a experiência esperada (por mim) não estava acontecendo. A tecnica não funcionava. Por quê? Ora, como essa doutrina declarava que tudo dependia da consagração total, forçosamente a culpa era minha. Portanto, deveria fazer nova raspagem em meu interior para descobrir que sujeiras do ego não-consagrado se escondiam em mim. Fiquei um tanto desvairado (alucinado, enlouquecido).
Então (Graças a Deus!) o grupo recebeu doações de livros para a biblioteca de um pastor idoso, na qual havia um conjunto de obras de John Owen, praticamente completa. Escolhi algumas paginas do volume VI, meia a esmo, e li o que Owen escreveu a respeito da mortificação – e Deus usou o que esse antigo puritano[2] escreveu tres séculos atrás para esclarecer meus pensamentos.

Um Gigante Puritano
            Owen é, por consenso, o mais bem conceituado teólogo puritano, e muitos o classificaram, ao lado de João Calvino e de Jonathan Edwards, como um dos tres maiores teólogos reformados de todos os tempos. Ele nasceu no ano de 1616, entrou para o Queen’s College, em Oxford, aos 12 anos de idade e completou seu mestrado em 1635 aos 19 anos.
            Em 1637, tornou-se pastor (aos 21 anos).  Na década de 1640, foi capelão[3] de Oliver Cromwell e, em 1651, veio a ser deão (líder eclesiástico) da Christ Church, a maior faculdade de Oxford. Em 1652, recebeu o cargo adicional de vice-reitor da universidade, a qual  passou a reorganizar com sucesso notável. Depois de 1660, foi líder dos Independentes, nos anos amargos da perseguição, até morrer em 1683.
            Owen era teólogo reformado conservador de grande erudição e oratória. Seus livros foram justamente considerados um conjunto de sistemas teológicos, cada um organizado em torno de um diferente foco. A verdade da Trindade – a história do Criador triúno que se tornou o Redentor triúno, sempre constituia seu ponto de referência, e viver a vida cristã era sua preocupação constante.
            David Clarkson, ao pregar em seu culto fúnebre disse: Owen, como pregador, submetia a própria máxima de que “o homem só prega bem um sermão quando este é pregado em sua própria alma”. E, ainda declarou: “Considero-me obrigado, pela consciência e pela honra, a nem sequer imaginar que consegui o conhecimento apropriado de algum artigo da verdade, muito menos de o tornar público, a não ser que tenha, mediante o Espírito Santo, experimentado tanto seu sabor, no sentido espiritual, a ponto de dizer, de todo o coração, como o salmista: “cri, e por isso falei”.

Sabedoria Sobre a Mortificação
O discurso de Owen, como ele o chamava, é uma coletânea reescrita em forma de livro – de sermões pastorais sobre Romanos 8:13: “... se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão” (mortificar é o memso que fazer morrer). Pode-se dizer dos sermões de Owen, que somente pela leitura repetida seu poder e sua unção perscrutadores se fazem sentir.
Os mestres reformados, a partir de Calvino, tem explicado a obra santificadora do Espírito Santo em termos positivos, de vivificação (virtudes que se desenvolvem), e negativos, de mortificação (matar os pecados). Conforme o que se expressa na Confissão de Westminster (13:1):

Os que são eficazmente chamados e regenerados tem um novo coração e um novo espírito e são, além disso, santificados, real e pessoalmente, pela virtude da morte e ressurreição de Cristo, por sua Palavra e por seu Espírito, que neles habita; o dominio do pecado sobre o corpo é destruido, suas várias concupiscências cada vez mais enfraquecidas e mortificadas, e eles cada vez mais vivificados e fortalecidos em todas as graças salvadoras, para a prática da verdadeira santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor.

            A mortificação é o assunto de Owen, decidido a explicar a teologia desse tema a partir das Escrituras. Mas, para tornar seu tratado mais prático e útil possível, aborda em seu texto a seguinte questão:

Suponhamos que alguém seja cristão verdadeiro, porém encontre dentro de si um pecado poderoso, que o faça cativo de sua lei pecaminosa, consuma-lhe o coração com angústia, confunda-lhe os pensamentos, enfraqueça a alma no tocante aos deveres da comunhão com Deus, perturbe-lhe a paz, quem sabe lhe macule a consciência e o exponha ao endurecimento mediante o engano do pecado. O que deve fazer esse individuo? Que procedimento adotar, e nele insistir, para a mortificação desse pecado, dessa concupiscência, perturbação ou corrupção?

            Owen me perscrutou até as raizes de meu ser. Ensinou-me a natureza do pecado, a necessidade de lutar contra ele e o método para fazer isso. Mostrou-me como compreender a mim mesmo como cristão e de que forma viver diante de Deus humilde e sinceramente, sem fingir ser o que não sou nem não ser o que sou. O despertar decisivo de todas as percepções que já recebi de Owen surgiu quando li pela primeira vez o que escreveu sobre a mortificação. Essa pequena obra é uma mina de ouro espiritual.

Sintonizando

            Reconheço,  porém, ao escrever isto, que alguns leitores acharão dificil sintonizar-se (por assim dizer) com as ondas de Owen, não em razão de seu linguajar pomposo, com sua retórica fastidiosa e eventuais palavras estranhas, mas por causa das falhas de boa parte da educação cristã de nossos dias. Cabe aqui mencionar particularmente quatro dessas falhas:
            Primeira: a santidade de Deus é insuficientemente enfatizada. A santidade, chamada de o atributo acima de todos os atributos de Deus, é a qualidade que separa o Criador de suas criaturas e que o faz diferente de nós em nossa fraqueza. (...). Alguém que visita nossa consciência com sua presença, desmascarando e condenando o pecado dentro de nós.
Hoje, com muita frequencia, põe-se a santidade de Deus em segundo plano; o resultado é que seu amor e sua misericórdia são sentimentalizados, e acabamos pensando nele em termos de um tio bondoso.
            Um dos efeitos desse irrealismo é tornar dificil a crença de que o Deus santo dos escritores Bíblicos, dos Profetas, dos Salmistas, dos Historiadores, dos Apóstolos e muito claramente do proprio Senhor Jesus Cristo – é o Deus verdadeiro com quem de fato precisamos tratar. Os puritanos acreditavam nisso, e é-nos necessário ajustar nossa mente para compreender a teologia de Owen.
            Segunda: a relevância do desejo motivador é insuficientemente enfatizada. Nas Escrituras e em Owen, o desejo é o indicador de nosso coração, e a motivação é o teste decisivo que mostra se as ações são boas ou más. Se o coração for mau, sem reverência, amor, pureza, humildade e espírito doador, e se, além disso, estiver envenenado por soberba, ambição egoísta, inveja, concupiscência, ódio, concupiscência sexual ou coisas semelhantes, nada do que o individuo realize será certo aos olhos de Deus, conforme disse Jesus repetidas vezes aos Fariseus.
            É comum a vida moral ser reduzida a uma pecinha de teatro, em que a representação determinada e exigida é tudo, e nenhuma atenção se dá à concupiscência, a furia e as hostilidades do coração, contanto que as pessoas façam o que se acha que devem fazer. Essa formalidade mediante a qual nos avaliamos, não é o modo pelo qual Deus nos avalia.
            Quando as Escrituras mandam o cristão mortificar o pecado, o significado não é apenas que os maus hábitos devem ser desfeitos, mas também que os desejos e impulsos pecaminosos precisam ser aniquilados – e, nesse aspecto, Owen está interessado em nos ajudar no decurso de seu livro. Por isso, precisamos entender seu argumento sobre esta questão (a mortificação do pecado).
            Terceira: a necessidade de exame de consciência é enfatizada de modo insuficiente. Ressalta-se que o coração humano decaído é enganoso e que a ignorância a respeito do eu é perigosa. Em consequencia, fazemos bom juizo de nosso coração e de nossa vida, ao passo que Deus, que perscruta o coração, se desagrada de ambos.
            Numa era em que os psicólogos e psiquiatras atribuem tanta importância as motivações ocultas e não concretizadas, é por demais irônico que os cristãos se recusem tao categoricamente a reconhecer que eles e outros se deixem enredar por qualquer forma de auto-engano no conceito que tem de si proprios. Owen, um puritano realista, sabe que estamos constantemente nos ludibriando ou sendo ludibriados n tocante as nossas verdadeiras atitudes e aos nossos propositos; por isso insiste em que devemos vigiar e nos examinar à luz das Escrituras.
            Quarta: o poder de Deus na transformação da vida não recebe enfase suficiente. Nas Escrituras e em Owen, a salvação individual significa, literalmente, mudança de coração, uma mudança moral que cria raízes no exercício continuo da fé, esperança e amor, no qual o poder da morte de Cristo liberta do dominio do desejo pecaminoso; tambem o poder do Espírito Santo para induzir atitudes e ações semelhantes às de Cristo está sendo constantemente comprovado.
            É triste – e até escandaloso, que hoje se ouça tão pouco a respeito disso, ao passo que tanta coisa se diz a respeito do poder de Cristo e de seu Espírito em várias outras formas do ministério. Mas a verdadeira libertação das paixões pecaminosas é a benção para a qual Owen desejaria levar-nos, e ele  não tem duvida de que ela exista e de que possa ser obtida:

 “Ponha em prática a fé em Cristo para a mortificação de seu pecado”, escreve, “Seu sangue é o excelente e poderoso remédio para as almas doentes do pecado. Viva assim e morrerá vencedor. Sim, ainda viverá, mediante a boa providência de Deus, até ver a concupiscência morta a seus pés”.

Leia com a disposição de aprender a respeito do poder de seu Salvador, e o Espírito Santo o libertará da escravidão dos desejos descontrolados. Que Deus conceda a todos nós coração para entender e aplicar as verdades que Owen expõe aqui.
                                                                                    J. I. Packer.

Cap. 1  A Base de Todo o Argumento

            A seguir está em Romanos 8:13. As palavras do apóstolo abrem a conexão certeira entre a verdadeira mortificação e a salvação. A mortificação é trabalho do cristão, sendo o Espírito sua causa eficaz principal. O que significa “o corpo” nas palavras do apóstolo. O que significam “os atos do corpo”. A vida: em que sentido ela está comprometida com a prática desse dever.

Romanos 8:13. Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis (acréscimo nosso).

            Depois de recapitular a doutrina da justificação pela fé e do estado abençoado e a condição daqueles que, pela graça, dessas coisas são participantes (Romanos 8:1-3), o apóstolo Paulo passa a desenvolver seu argumento visando a maior santidade e a consolação do cristão.
            Esse versiculo mencionado acima, contém um pensamento que se baseia nos acontecimentos e efeitos contrários a santidade e ao pecado: “Se viverdes segundo a carne ..., morrereis”. Uma vez que meu alvo e propósito não são, no presente, explicar o que é “viver de acordo com a carne” nem o que é “morrer”, não oferecerei outra explicação além de que tais palavras estão de acordo com o restante desse versículo que tomamos como tema.
            Nas palavras designadas como fundamento, existe, em primeiro lugar, a prescrição de um dever: “façam morrer os atos do corpo”. Em segundo lugar, são declaradas as pessoas às quais o dever se dirige: “... se vocês fizerem, morrereis”. Em terceiro lugar, há uma promessa ligada a esse dever: “... viverão”. Em quarto lugar, a causa ou meio de realização desse dever e; por fim, em quinto lugar, a condição da proposição inteira, que contém o dever, os meios e a promessa: “... se pelo  Espírito...”. Todovia, devemos observar a disposição das palavras na proposição inteira:

1) A primeira coisa que ocorre é a condicional “Se”. As conjunções condicionais em proposições como essa podem denotar duas possibilidades:
a) A incerteza do evento ou do objeto prometidos em relação a quem o dever é direcionado. Isso ocorre quando a condição é absolutamente necessária e nã depende de nada determinado por quem recebeu o preceito. Assim dizemos: “Se vivermos, faremos isso ou aquilo”. No entanto, no presente contexto, essa não pode ser a intenção da expressão condicional. Das pessoas a quem se dirigem essas palavras, diz-se no versículo 1: “Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1).
b) A certeza da coerência e da conexão que existem entre coisas mencionadas, tais como um  conselho dado a um enfermo: “se tomar determinado remédio, vai sarar”; nesse caso, o que se pretende expressar é unicamente a certeza da conexão entre o remédio e a saúde.
            A intenção, portanto, do fato de essa proposição ser condicional é que há conexão e coerência infalivel entre a mortificação verdadeira e a vida eterna. Se realmente “fizer morrer”, viverá. Nisso se encontra a motivação principal do dever prescrito e de sua prática.

2) A segunda coisa que encontramos nessas palavras é a natureza das pessoas às quais esse dever é prescrito, expressa na palavra “vocês”: se “Vocês (...) fizerem morrer”.
            Isto é, vocês, cristãos, para os quais “já não há condenação” (v.1), vocês, que “não estão sob o domínio da carne, mas do Espírito” (v.9), vivificados pelo Espírito de Cristo (v.10-11), a vocês é dado esse dever. Impor esse dever diretamente a qualquer um é, com certeza, fruto da superstição e do farisaismo (hipocrisia, falsidade) que enchem o mundo, prática de indivíduos devotos que desconhecem o evangelho (Romanos 10:3-4; João 15:5).
            Cristãos exemplares e libertos do poder condenatório do pecado, mesmo assim devem assumir o dever, durante toda a vida, de mortificar o poder do pecado que neles habita.

3) A terceira causa eficaz e principal do cumprimento desse dever é o Espírito: “se pelo Espirito”.  O Espírito referenciado aqui é o mesmo mencionado no versículo 11, o Espírito de Cristo, o Espírito de Deus que em nós habita (v.9); que nos dá vida (v.11); o Espirito que nos adota (v.15); o Espírito que intercede por nós (v.26).
            Todos os demais meios de mortificação são vãos; todas as ajudas nos deixam indefesos; imprescindivelmente, só o Espírito a realiza. Os homens, conforme subentende o apóstolo (Romanos 9:30-32), podem tentar realizar essa obra segundo outros princípios, por meios e ajudas que operam por outros sistemas, como sempre fizeram e fazem; mas essa obra é do Espírito; dever ser realizada somente por ele e não pode ser levada a efeito por outro poder qualquer.
            A mortificação mediante as próprias forças levada a efeito por meios inventados pelo próprio indivíduo, com o propósito de ser justo em si mesmo, é o cerne e a substância de toda a religião falsa no mundo inteiro.

4) Comentemos agora sobre o dever propriamente dito: “Fazer morrer os atos do corpo”. Tres coisas serão pesquisadas nesta abordagem: a) qual é o significado de “o corpo”; b) qual é o significado de “os atos do corpo”; c) qual é o significado de “fazer morrer” os atos do corpo.
a) O Corpo: essa expressão no fim do versículo, é o mesmo que carne no início: “... se vocês viverem de acordo com a carne,morrerão”, mas se “fizerem morrer os atos do corpo”, isto é, da carne, “viverão”. É a esse corpo que o apóstolo Paulo se refere, o tempo todo, com o nome de carne.
Portanto, o corpo referido aqui, é como a corrupção e depravação de nossa natureza, da qual o corpo, em grande medida, é a sede e o instrumento; sendo que os próprios membros do corpo são escravos da maldade.  O corpo aqui, é igual ao “velho home” e o “corpo do pecado” (Romanos 6:6,19). Ou, ainda, expressar o individuo total, corrompido e a sede das concupiscências e das paixões desenfreadas.

     b) Os Atos do Corpo: a palavra “atos” denota principalmente ações externas, “as obras da carne”, conforme são chamadas em Gálatas 5:19 que, no texto são manifestas e passam a ser enumeradas. Embora somente os atos externos são considerados aqui, na intenção principal são suas causas mais intimas e próximas que estão em jogo. O “machado deve ser aplicado à raiz da árvore”

Mateus 3:10. E também, agora, está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo (acréscimo nosso).

O significado implícito no texto referido acima, afirma que os atos da carne devem ser mortificados em suas causas (origens), das quais brotam. Ainda que apenas concebidos e que não deem em nada, sua intenção é dar à luz o pecado consumado. “Os atos do corpo” são semelhantes à “mentalidade da carne” (Romanos 8:6). “O corpo está morto por causa do pecado”.

“Se pelo Espírito fizerem morrer”: expressão metafórica tirada do conceito de fazer morrer (ou mortificar) qualquer ser vivente. Matar um ser humano ou qualquer ser vivo é tirar o princípio de todas as forças, seu vigor e seu poder, de modo que não possa agir, exercer nem produzir nenhum ato por conta própria.
O pecado que habita em nós é comparado com uma pessoa viva chamada de velho homem, com as próprias faculdades e propriedades, sabedoria, manias, sutilezas e forças. Este (diz o apóstolo), deve ser morto, executado, mortificado, isto é, o poder, a vida, o vigor e as forças que produzem esses efeitos dever ser removidos pelo Espirito. Por isso se diz que o “velho homem” foi crucificado com Cristo (Romanos 6:6-8).
A intenção do apóstolo ao prescrever o dever mencionado é que a mortificação do pecado que ainda permanece em nosso corpo mortal seja dever constante do cristão, a fim de que o pecado não tenha vida nem poder para produzir as obras ou atos do corpo.

5) A promessa para o cumprimento desse dever é a vida: “..., viverão”.
A vida prometida opõe-se à ameaça da morte na frase anterior: “... se vocês viverem de acordo com a carne, morrerão...”. O apóstolo apresente este mesmo conceito em outro texto: “Quem semeia para a sua carne, da carne colherá destruição” (Gálatas 6:8). Essa destruição vem da parte de Deus.
            Diz o apóstolo em outro texto: “Pois agora vivemos, visto que vocês estão firmes no Senhor”, isto é, agora minha vida me fará bem, terei alegria e consolação em minha vida (1 Tessalonicenses 3:8). Vocês “viverão”, terão uma vida proveitosa, vigorosa, confortável e espiritual, enquanto estiverem aqui, e obterão a vida eterna no porvir.

Cap. 2  Apresenta-se e confirma-se a principal asserção (afirmação)

            Referente a necessidade de mortificação: a mortificação é dever dos melhores cristãos (Colossenses 3:5; 1 Coríntios 9:27). O pecado está sempre presente em nossa vida: não há perfeição nesta vida (Filipenses 3:12; 1 Coríntios 13:12; 2 Pedro 3:18; Gálatas 5:17...). A atividade do pecado permanece no cristão (Romanos 7:23; Tiago 4:5; Hebreus 12:1) com seus frutos e tendências. (...). O Espírito e a nossa natureza nos são dados para lutar contra o pecado que em nós habita (Gálatas 5:17; 2Pedro 1:4-5; Romanos 7:23). O terrível problema de negligenciar a mortificação (Apocalipse 3:2; Hebreus 3:13). O primeiro princípio do argumento inteiro ém portanto, confirmado. Lamente-se a falta do cumprimento desse dever.     
Fundamentado nos textos referidos acima, farei inferências fundamentais apresentando a minha intenção principal.  Antes, porém, quero dizer que: Mesmo os cristãos exemplares, libertos do poder condenador do pecado, ainda assim devem empenhar-se, enquanto viverem, para mortificar o poder do pecado que neles habita. Diz o apóstolo: “Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês” (Colossenses 3:5).
A quem ele se dirige? Aos que ressuscitaram com Cristo (v.1); que morreram com ele (v.3); de quem Cristo era a vida e que se manifestariam com ele em glória (v.4). (...), não interrompa um só dia essa obra; preocupe-se em matar o pecado, senão ele acabará matando voce”. Certa vez alguém já disse: “Ou a Palavra de Deus te afasta do pecado, ou o pecado te afasta de Deus”.
Nosso Salvador nos diz como o Pai lida com cada ramo que nele dá fruto, que é verdadeiro e vivo: “ele poda, para que dê mais fruto ainda”. Ele poda o ramo, e isso não somente durante um ou dois dias, mas enquanto for um ramo deste mundo (João 15:2). O apóstolo Paulo conta qual era a sua prática para mortificar o seu pecado: “... esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo”. Faço isto diariamente (diz ele), é o trabalho de minha vida; não me omito dele, essa é minha tarefa (1 Coríntios 9:27).
Se esse homem, exaltado em graça, iluminação, revelações, contentamento, privilégio, consolações, que estão muito acima da média dos cristãos, fazia assim, poderiamos fundamentar nossa isenção dessa obra e obrigação, enquanto estivermos neste mundo? Apresentarei algumas razões plausíveis e resumidas das motivaçoes ou razões disso:

1ª) A natureza do pecado permanecerá em nós enquanto estivermos neste mundo, por isso sempre deve ser mortificada. É bem provável que muitos pecadores nunca souberam o que está envolvido na guarda de sequer um dos mandamentos de Deus; estão tão abaixo da perfeição nos graus de obediência que nunca atingiram nem mesmo a obediência universal em sinceridade.
            Muitos que tem falado em perfeição, tentam mostrar-se sábios e afirmam que essa perfeição consiste em não reconhecer nenhuma diferença entre o bem e o mal. Não se trata de ser perfeitos nas coisas que chamamos de virtuosas, mas sim que tudo para eles é igual, e o auge da iniquidade é sua perfeição.
            Quanto a nós, que não ousamos ser sábios acima do que está escrito, nem nos vangloriamos, como fazem alguns, daquilo que Deus tem feito não por meio de nós, dizemos que o pecado habita em nós em certa medida e em certo grau enquanto estamos neste mundo. Não ousamos falar como se já tivéssemos obtido tudo ou sido aperfeiçoados (Filipenses 3:12).
            Temos de lembrar que a carne deseja o que é contrário ao Espírito; e o Espírito, o que é contrário à carne, de modo que não podemos fazer o que desejamos; por isso, somos defeituosos em nossa obediência, bem como em nosso entendimento (Gálatas 5:17). Por isso, é o nosso dever mortificar e continuar matando o pecado, mas é dentro de nós que devemos agir.

2ª) O pecado não somente permanece em nós, mas continua agindo, sempre em dores de parto para dar à luz os atos da carne. Precisamos entender que o pecado nunca está menos quieto do que quando parece mais quieto; e, já que suas águas correm mais profundas quando parecem paradas, nossas estratégias contra ele devem ser constantes, em todas as condiçoes, ainda que não haja suspeitas.
            (...), o “Espírito que fez habitar em nós (com) fortes ciúmes” está em operação contínua: “... a carne deseja o que é contrário ao Espírito”. A concupiscência continua tentando e concebendo o pecado. “... o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo” (Tiago 1:14; 4:5; Gálatas 5:17; Romanos 7:19).  Como é isso?  É porque nada de bom habita em nós, isto é, na nossa carne (corpo). Portanto, isso impede a prática do bem. Noutras palavras, o que eu faço não é o bem que eu desejo fazer (v.19). Sendo assim, o pecado está sempre agindo, concebendo, seduzindo e tentando pessoas.
            Por isso vale o importante alerta: Se o pecado estiver sempre atuando e agindo, e nós não o estivermos sempre buscando mortificá-lo, estaremos totalmente perdidos.  Quem se mantém imóvel numa luta e deixa seu adversário duplicarem seus golpes contra si, sem resistência, certamente será vencido. Os santos, cuja alma suspira pela libertação da rebeldia desorientadora sabem que não há segurança contra ele, senão numa guerra perpétua e sem trégua.

3ª) O pecado não somente lutará, agindo, rebelando-se, pertubando, inquietando, mas, se for deixado à vontade, sem ser mortificado, também produzirá pecados grandes, malditos, escandalosos e destruidores da alma. O capítulo 5:19:21, do Livro de Gálatas, apresenta uma enumeração das obras e o frutos do pecado, ou seja, da carne.
No versículo 21, o apóstolo adverte: “(...), acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus”. O pecado sempre visa a produzir o máximo prejuizo: se toda vez que surge para tentar ou para seduzir, tivesse liberdade de atuação, levaria até ao pecado supremo de sua espécie. (...). Quanto mais a alma é deixada insensível à presença de qualquer pecado, isot é, no sentido que o evangelho define, tanto mais é endurecida.
No entanto, o pecado continua pressionando aos poucos, pois seu alvo é levar a alma a abandonar totalmente a Deus e até a opor-se a ele. O fato de o pecado aproximar-se de seu auge paulatinamente, aproveitando o terreno já conquistado pelo endurecimento do coração, não provém tanto de sua natureza, mas de sua fraudulência.
Logo, a mortificação seca a raiz do pecado e lhe fere a cabeça, hora após hora, de modo que todos os seus intentos sejam destruidos. Não existe no mundo inteiro alguém maravilhosamente santo que, caso se torne relapso quanto a este dever (deixe de manter vigilância quanto a esse perigo constante), não caia em tantos pecados malditos quantos os cometidos por qualquer membro da raça humana.

4ª) Essa é uma das razões principais por que o Espírito e a nova natureza são dados a nós: a fim de que tenhamos força interior para nos opor ao pecado e à concupiscência (desejo exagerado por prazeres; apetite sexual).  Devemos lembrar que “a carne deseja o que é contrário ao Espírito”. E que, o Espírito, por sua vez,  deseja “o que é contrário a carne” (Gálatas 5:17).
            De acordo com 2 Pedro 1:4-5, como nós somos “participantes da natureza divina”, é-nos oferecida a possibilidade de fugir da “corrupção que há no mundo, causada pela conscupiscência”. Existe uma lei que governa a mente e outra que governa o corpo (Romanos 7:23).
            Portanto, deixar de empregar diariamente o Espírito e nossa nova natureza oara mortificar o pecado é negligenciar o socorro excelente que Deus providenciou contra nosso maior inimigo. Se não usarmos o que recebemos, Deus pode, com razão, refrear sua mão de nos conceder mais bençãos, sua graça e seus dons. Sendo assim, não mortificar diariamente o pecado é pecar contra a bondade, a generosidade, a sabedoria, a graça e o amor de Deus, que nos ofereceu meios de mortificá-lo.

5ª) A negligência a esse dever lança a alma numa condição completamente contrária à descrita pelo apóstolo Paulo como sendo a sua: “Embora exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo renovados dia após dia” (2 Coríntios 4:16).
O pecado é como a casa de Davi, e a graça com a casa da Saul. O exercício e o sucesso são os dois principais incentivadores da graça no coração: quando o poder da graça é deixado inativo (Saul), ela murcha e decai. Sua atuação quase morre, e o pecado ganha terreno com o endurecimento do coração (Apocalipse 3:2; Hebreus 3:13).
O que quero dizer com isso, é que quando esse dever é deixado de lado, a graça definha, a concupiscência prospera e a disposição do coração fica cada vez pior. Só o Senhor sabe quantas consequencias desesperadoras e horríveis isso acarreta para muitas pessoas.
Quando o pecado, mediante a negligência da mortificação, consegue considerável vitória, quebra os ossos da alma e deixa a pessoa fraca, doente, pronta para morre, de modo que não consiga sequer levantar os olhos (Salmo 31:10; 51:8; 38:3-5; 40:12; Isaías 33:24).

Salmo 31:10. Porque a minha vida está gasta de tristeza, e os meus anos, de suspiros; a minha força descai por causa da minha iniquidade, e os meus ossos se consomem.
(...)
Salmo 51:8. Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que gozem os ossos que tu quebrastes.
(...)
Isaías 33:24. (...): Enfermo estou; porque o povo que habitar nela será absolvido da sua iniquidade (acréscimos nosso).

            Quando pobres criaturas aceitam golpe após golpe (palavras pessimistas), ferida após ferida, derrota após derrota (palavras desencorajadoras), sem nunca se opor vigorosamente, como poderão esperar outra coisa senão ficar endurecidas (doentes), mediante o engano do pecado e sangrar a alma até morrer? (acréscimo nosso).
            A verdade é que, ao fazer da mortificação um estado de espírito rígido e inflexivel, quase sempre ela se transforma, por um lado, em mundana, legalista, crítica, parcial, cheia de ira, inveja, perfídia (deslealdade, maldade), soberba e, por outro lado, com pretensões de liberdade e de graça e mais nem sei o quê, enquanto a verdadeira mortificação quase desapareceu de nosso meio cristão.

6ª) Nosso dever é aperfeiçoar a santidade no temor do Senhor (2 Coríntios 7:1). Crescer na graça todos os dias (2 Pedro 3:18). Renovar o homem interior dia a dia (2 Coríntios 4:16).
            Ninguém pense que está fazendo algum progresso na santidade senão pisotear as concupiscências do pecado, ou seja, mortificando diariamente a carne (o pecado). Quem nao estiver fazendo assim, nao fará sucesso em sua jornada cristã. Aquele que não tem consciência da oposição ferrenha do pecado, não se dedicará a mortificá-lo diariamente; e, com isso, acaba fazendo as pazes com ele e não morre para o mundo (pecado).
            Precisamos entender que o pecado permanece agindo e operando nos cristãos mais dedicados, enquanto viverem neste mundo, de modo que lhes cabe mortificá-lo constantemente, durante todos os dias de sua vida. (...). Infelizmente, se o desperdício de tempo, negligência, falta do que fazer, inveja, ira, discórdia, dissimulações, facções, dissensões, soberba, mundanismo, egoísmo, fossem características cristãs, nós as teriamos de sobra em nós. Que o nosso bom Senhor envie o espírito da mortificação para curar nossa indisposição, pois, caso contrário ficaremos em situação lastimável. Existem dois males que certamente acompanham todo cristão professo, mas não mortificado: o primeiro relaciona-se com ele mesmo, e o outro diz respeito às outras pessoas.
a)    Em relação a si mesmo: o cristão pode fingir o quanto quiser e não levar a sério o pecado, pelo menos não os pecados que o enfraquecem diariamente. A raiz de uma vida não mortificada é a assimilação do pecado sem senti-lo amargo no coração. Todo aquele que ajustou a imaginação para uma espécie de apreensão da graça e da misericórdia que o torna capaz de engolir e de ingerir pecados diários sem sentir amargura, chegou a beira do abismo de transformar a graça de Deus em lascivia e de ser endurecido pela engenhosidade do pecado.
Muitos cristãos, durante bom tempo, tinha verdadeiras convicções que os levavam a cumprir com seus deveres e a fazer sua profissão de fé. No entanto, por suas numerosas negligências, entre outras coisas, o mal tomou conta deles e cairam na perdição.
b)    Em relação às outras pessoas: uma das formas de agirem é que ficam endurecidas. Seu modo de ver as coisas é tão maculado pela falta da mortificação do pecado que o que fazem não tem valor algum. Têm zelo pelo Evangelho, mas acompanhado de falta de tolerância e de retidão global. Negam a prodigalidade (desperdicio, gastos exagerados), mas de modo mundano; separam-se do mundo, mas vivem totalmente para si mesmas e nao tem cuidado de exercer o amor benigno na terra.

Cap. 3  O segundo princípio geral dos meios de mortificação

            O Espírito é o único autor dessa obra. Desmascarada como vã a mortificação papista. Muitos meios usados pelos católicos romanos nao são ordenados por Deus. Os que são ordenados por Deus são deturpados. Os erros de outros nesse assunto. O Espírito é prometido aos cristãos para essa obra (Ezequiel 11:19; 36:26). Tudo quanto recebemos da parte de Cristo é mediante o Espírito. Como o Espírito mortifica o pecado (Gálatas 5:19-23). Os vários meios de sua operação com esse propósito. Em que medida é obra do Espírito e nosso dever também?
            Somente o Espírito é suficiente para realização dessa obra. Sem ele, todos os meios e métodos não valem nada; ele é seu grande motor eficaz; ele “opera em nós conforme lhe convém”. Consideremos alguns pontos deste capítulo:

1) Em vão os homens procuram outros remédios; não serão curados por qualquer deles. A maior parte da religião católica romana, daquilo que é professado como religião por eles, consiste em métodos e meios equivocados de mortificação. Seus votos, ordens, jejuns e penitências sao edificados sobre o alicerce da mortificação do pecado. Suas pregações, sermões e livros devocionais veem tudo sob esse prisma.
            Os que interpretam “os gafanhotos” que surgiram do “poço do abismo”, em Apocalipse 9:2, como sendo frades da igreja romana, que, segundo dizem, atormentam os homens de tal forma que “procurarão a morte, mas não a encontrarão” (v.6), acham que esses frades fazem isso mediante seus sermões, verdadeiras ferroadas pelas quais convencem os ouvintes do pecado.
            Que os meios e métodos de mortificação do pecado, inventados por eles, ainda são receitados insistentemente a pessoas que deveriam ter mais iluminação e conhecimento do evangelho é bem sabido. Dentre os motivos por que os católicos romanos nunca poderão, com todos os seus esforços, mortificar realmente nem um pecado sequer estão os fatos de que (em meio a tantos outros):
a)    Muitos meios e métodos que empregam com insistência para esse fim nunca foram determinados por Deus para esse propósito. A respeito de tudo isso, de suas roupas de pano de saco, de seus votos, de suas penitências, de suas disciplinas, de seu sistema de vida monástica e de coisas assim, Deuss dirá: “Quem exigiu isso de sua parte?” e “Em vão me adoram ensinando por doutrinas as tradições dos homens”.
b)    Com os meios determinados por Deus, tais como orar, jejuar, vigiar, meditar e coisas semelhantes, não são usados pelos papistas no devido lugar e ordem, esses hábitos são considerados por eles como negócios. Esses meios efetuam e cumprem sua finalidade apenas subordinados ao Espírito e á fé, ao passo que os católicos romanos esperam que essa finalidade se realize em virtude da obra que fizeram.
Eles acreditam que se jejuarem e orarem tanto e observarem suas horas e periodos de oração, a obra será feita. O apóstolo escreveu a respeito desta conduta, ao dizer que “estão sempre aprendendo, mas jamais conseguem chegar ao conhecimento da verdade”. Portanto, sempre se mortificam, mas nunca chegam a qualquer mortificação consistente.
Quão terrível autoflagelo (açoites, chicotadas, sofrimento corpóreo) eram praticados por alguns fundadores da devoção monástica! A que extremismos de sofrimento se submeteram! Eles, na tentativa de fazerem rígida mortificação do pecado, atacavam o homem natural em vez do velho homem corrupto; atacavam o corpo em que habitamos, em vez de o corpo da morte.
Promete a si mesmos e a Deus que não mais pecarão, velam por si mesmos e oram durante algum periodo, até esse calor esfriar e a consciência do pecado esvair-se; desse modo, a mortificação também desaparece, e o pecado volta a seu dominio anterior. (...). Indivíduos espiritualmente enfermos não podem livrar-se de sua indisposição mediante o suor de seu trabalho. E é isso que tentam fazer os que enganam sua propria alma.

2) É, portanto, obra do Espírito, porque:  a) Deus prometeu que nos daria o Espírito para realizar essa obra. A remoção do coração de pedra, ou seja, do coração obstinado, soberbo, rebelde e incrédulo. Essa obra continua sendo prometida mediante operação do Espírito: “... porei um espírito novo em vocês, tirarei de vocês o coração de pedra...” (Ezequiel 11:19; 36:26).
            Quando fracassam todos os outros meios (e sempre fracassarão) é pelo Espírito de Deus que essa obra é realizada “Pela iniquidade da sua avareza, me indignei e os feri; escondi-me e indignei-me; mas, rebeldes, seguiram o caminho do seu coraçao. Eu vejo seus caminhos e os sararei; também os guiarei e lhes tonarei a dar consolações e aos seus pranteadores” (Isaías 57:17-18).
b)  Recebemos a mortificação completa como dádiva de Cristo, e todas as dádivas de Cristo nos são transferidas e dadas pelo Espírito de Cristo. Sem Cristo, nada podemos fazer (João 15:5). Toda provisão e assistência na atuação de qualquer graça proveniente dele são mediante o Espírito, e é somente mediante o Espírito que Cristo opera nos cristãos e em cada um deles.
Como Cristo realiza esta obra? Tendo recebido a promessa do Espírito Santo, ele O envia com esse propósito. Conecemos as múltiplas promessas que Cristo fez a respeito do Espírito, conforme diz Tertuliano, para cumprir as obras que deveria realizar em nós (Atos 2:33).
E como o Espírito mortifica o pecado? Geralmente ele realiza de tres modos: - ao levar o nosso coração a transbordar na graça e nos frutos contrarios a carne. Mas, se esse fruto esté em nós e transborda, as obras da carne não podem transbordar também? Não, afirma o apóstolo: “Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos” , ou seja, mediante o derramar dessa graça do Espírito dentro de nós e mediante nosso viver à altura dela” (Gálatas 5:24-25).
- com eficácia real e física contra a raiz e o hábito do pecado, visando a seu enfraquecimento, destruição e remoção. Por isso é chamado de “espirito de julgamento ... e de fogo”, consumindo e destruindo de fato nossas concupiscências (Isaías 4:4).  Ele remove o coração de pedra com eficácia poderosa, pois esse é o fogo que consome a própria raiz da concupiscência. - introduz a cruz de Cristo no coração do pecador mediante a fé e oferece comunhão com Cristo em sua morte, bem como comunhão em seus sofrimentos.
Se essa obra é exclusivamente do Espírito, como somos exortados a realizá-la? - A obra do Espírito não é diferente de toda graça e boa obra que, estando em nós, também são dele. Éle efetua em nós “tanto o querer quanto o efetuar (realizar), de acordo com a boa vontade dele” (Filipenses 2:13). É ele quem nos leva a orar em “um espírito de ação de graças e de súplicas”. Mesmo assim, somos e devemos ser exortados a todas essas coisas.
Ele não opera em nós nossa mortificação, caso ela não seja um ato de obediência. O Espírito Santo opera em nós e sobre nós à medida que estejamos em condições de receber essa operação, conservando nossa liberdade e livre obediência. Ele opera sobre nosso entendimento, nossa vontade, consciência e emoções em harmonia com a propria natureza destes: opera em nós e conosco, não contra nós ou sem nós, pois a assistencia do Espírito é um estimulo para facilitar a obra, e nao uma desculpa para negligenciá-la.
Lamento realmente a labuta (o trabalho) tola e interminável de almas infelizes que, convictas do pecado e sem resistir ao poder de suas convicções, empreendem, por incontáveis e espantosos meios e deveres, a tarefa de manter dominado o pecado. Por não terem o Espírito de Deus, porém, é tudo em vão. Lutam sem vitória, guerreiam sem paz e permanecem na escravidão por todos os seus dias. “Gastam suas forças naquilo que não é pão, e seu trabalho, naquilo que não pode satisfazer” (Isaías 55:2).
A alma sob o poder da convicção da lei é alistada para lutar contra o pecado, mas não tem forças para o combate. Não pode recusar-se a lutar, mas jamais conseguirá vencer (sozinha, acréscimo nosso). É igualmente os homens lançados contra as espadas dos seus inimigos para ser trucidados. A lei os força a avançar, mas o pecado os rechaça.
Pensam, ás vezes, que realmente afastaram o pecado, mas, na realidade, somente levantaram poeira e, por isso, não o veem. Distorcem suas emoções naturais de medo, tristeza e angústia que os levam a crer que o pecado é vencido, mas, na realidade, nem sequer foi tocado (acabam baixando a guarda contra ele, acréscimo nosso). 
Se isso ocorre, ou seja, com aqueles que se esforçam para lutar contra o pecado que traz “muito embaraço e que tão de perto nos rodeia (Hebreus 12:1)” e, ainda assim, não entram no reino (citação inserida por nós), quanto pior será a condição dos que desconsideram a questão, perpetuamente sob o poder e o domínio do  pecado, muito satisfeitos nessa condição. Não se preocupam com nada a não ser conseguir dar provisão suficiente a carne, para satisfazer-lhe as concupiscências.

Cap. 4  O último princípio: da utilidade da mortificação.

            O vigor e o conforto de nossa vida espiritual dependem de nossa mortificação. Como? Não de modo absoluto e necessário. A condição de Hemã (Salmo 88). Não como a causa próxima e imediata. Como meio, mediante a remoção do contrário. Os efeitos desesperados da concupiscência não mortificada; ela enfraquece a alma de várias maneiras (Salmo 88:3,8) e as obscurece. A graçã é mais bem aproveitada mediante a mortificação do pecado. A melhor evidência da sinceridade.
            O último princípio em que vou insistir, omitindo a necessidade de mortificação para a vida e a certeza da vida por meio da mortificação, é que a vitalidade, o vigor e o conforto de nossa vida espiritual dependem muito da mortificação do pecado (a força motriz, acréscimo nosso).
            Tudo quanto acontecer a um cristão, mas que não se enquadrar em uma dessas categorias, não merece ser mencionado nas lamentações de nossos dias. Todas essas coisas podem melhorar muito com um sistema constante de mortificação, a respeito do qual se deve observar:

1)     Não digo que procedam desse sistema, como se estivessem necessariamente vinculados a ele.  Há quem vivencie um sistema constante de mortificação durante toda a vida sem nunca desfrutar um só dia agradável de paz e de consolo. Isso aconteceu com Hemã, descrito no Salmo 88. Sua vida era de constante mortificação e de andar com Deus; entretanto, terrores e feridas foram sua porção durante toda a vida.

Salmo 88:14-18. Senhor, por que rejeitas a minha alma? Por que escondes de mim a tua face? Estou aflito e prestes a morrer, desde a minha mocidade; quando sofro os teus terrores, fico perturbado. A tua ardentet indignação sobre mim vai passando; os teus terrores fazem-me perecer. Como águas me rodeiam todo o dia; cercam-me  todos juntos. Afastaste para longe de mim amigos e companheiros; os meus intimos amigos agora são trevas (acréscimo nosso).

Deus escolheu a Hemã, seu amigo especial, para fazer dele um exemplo aos que posteriormente sofressem aflições. Você poderia se queixar se lhe ocorresse o mesmo que com Hemã, aquele servo eminente (excelente, elevado) de Deus? Lembre-se: o emprego dos meios para a obtenção da paz pertence a nós; mas outorgar (conceder) a paz é prerrogativa de Deus. Portanto, devemos fazer bem a nossa parte e esperar em Deus (acréscimo nosso).

2)     Com relação aos meios instituidos por Deus para nos dar vida, vigor, coragem e consolação, a mortificação não é uma de suas causas imediatas. É o privilégio da adoção revelada à nossa alma que imediatamente nos dá essas bençãos. O Espírito “testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”; ele nos dá “um novo nome”, e “uma pedra branca”, a adoção e a justificação, isto é, sua consciência e seu conhecimento.

3) Em nosso andar diario com Deus e no decurso de seu modo usual de lidar conosco, o vigor e o conforto da vida espiritual dependem muito de nossa mortificação, não somente como requisito indispensável, mas também como algo que tem influência eficaz.

a) Pois é somente ela que impede o pecado de nos privar do relacionamento com Deus. Todo pecado nao mortificado certamente fará duas coisas: a primeira enfraquecerá a alma e a privará de seu vigor e a segunda, obscurecerá a alma e a privará de seu conforto e de sua paz.
       1ª - Enfraquecer a alma e a privar de sua força: Quando Davi, durante algum tempo, acalentou concupiscência não mortificada em sua alma, ela lhe quebrou todos os ossos e o deixou sem forças espirituais; por isso, se queixava de estar enfermo, fraco, ferido, desmaiado: “... todo o meu corpo está doente; não há saúde nos meus ossos ... sinto-me muito fraco e totalmente esmagado” (Salmo 38:3,8).
       A concupiscência não mortificada devora o espírito e todo o vigor da alma e a enfraquece para todos os deveres. Porque isso?  O pecado não mortificado põe o próprio coração fora de sintonia e de disposição, confundindo as emoções, isto é, desvia o coração da disposição espiritual necessária para a comunhão vigorosa com Deus. Outra questão é que o pecado não mortificado enche os pensamentos de concupiscências e, sabendo que, os nossos pensamentos são os grandes fornecedores da alma, fazendo provisão para satisfazer-lhe as afeições.
       Não podemos esquecer ainda, que o pecado não mortificado também faz brotar (irrompe) contra o dever e o prejudica. O indivíduo ambicioso está sempre se preparando; o mundano sempre trabalhando ou planejando; e a pessoa sensual e fútil preocupa-se em satisfazer suas vaidades, ao passo que todos deveriam estar ocupados com a adoração a Deus.
       2ª – Além de enfrafquer a alma, o pecado também a obscurece. É uma nuvem espessa que se espalha sobre sua superfície e intercepta todos os raios do amor e favor de Deus. Quando a alma começa a reunir alguns pensamentos de consolo, o pecado rapidamente os espalha. Aqueles que estão enfermos e feridos sob a opressão da concupiscência fazem muitos pedidos de socorro.
            Clamam a Deus quando ficam oprimidos pela perplexidade de seus pensamentos; sim, até a Deus clamam, mas não são libertos; em vão utilizam muitos remédios, mas não são curados. Os homens podem perceber sua enfermidade e suas feridas, mas, se não aplicarem o remédio correto, não haverá cura.

b) A mortificaçã faz uma poda da graça de Deus e deixa lugar no coração para ela crescer mais. Como se pode ver num jardim, é só plantar a muda de uma erva benéfica e deixar de lavrar a terra que ervas daninhas logo crescerão em redor. É bem possível que a planta boa continue viva, mas será uma plantinha frágil, murcha e inútil. É preciso procurá-la, às vezes sem êxito, mas, quando encontrada, dificilmente é possível identificá-la como a planta procurada.
            No entanto, deixe outra erva preciosa do mesmo tipo ser plantada num terreno, por natureza, tão fértil e ruim quanto ao outro, mas que seja limpo de todas as ervas más e daninhas, e a erva vicejará (germinará ou desenvolverá) e florescerá. Assim acontece com a graça do Espírito quando plantada em nosso coração. É bem verdade que ela continua presente num coração em que a mortificação foi parcialmente negligenciada, mas está a ponto de morrer, ficando murcha e decadente, conforme descrito em Apocalipse.

Apocalipse 3:1-2. (...). Eu sei as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto. Sê vigilante e confirma o restante que estava para morrer, porque nao achei as tuas obras perfeitas diante de Deus (acréscimo nosso).

            O coração é como o campo do preguiçoso, tão coberto de ervas más que dificilmente se consegue ver o trigo bom. Esse individuo poderá procurar a fé, o amor e o zelo, mas dificilmente conseguirá achar algum deles. Se descobrir que essas graças estão ali, vivas e sinceras, mas fracas e entupidas de pecados, tornam-se de pouco proveito.
       Portanto, deixe que o coração seja purificado pela mortificação e abra espaço para a graça vicejar e florescer e se verá cada graça desempenhando seu papel, à disposição para cada uso e propósito.

c)     No tocante a nossa paz, assim como não existe nada que ofereça evidência de sinceridade sem a mortificação, assim também não existe nada que tenha tal evidência de sinceridade a não ser a mortificação.  Ela, a mortificação, é a oposição vigorosa da alma ao próprio eu, o que torna a sinceridade mais evidente.

Cap. 5  Proposta a intenção principal do argumento inteiro.

       Declarado o primeiro caso principal da consciência. O que é mortificar um pecado de modo negativo. Não há destruição definitiva do pecado nesta vida. Não há dissimulação. Não há melhoria de principio natural algum. Não ha desvio dele. Não há conquista eventual alguma. Vitórias ocasionais sobre o pecado, o que e quando. Quando o pecado irrompe em tempos de perigo ou aflição.
       Apresentadas essas premissas, chego a minha intenção principal: lidar com algumas questões ou casos práticos que se apresentam na mortificação do pecado nos cristãos. A primeira questão, que é a soma de todas as demais e dentro da qual é possível enquadrar todas elas, pode ser considerada dentro da proposição seguinte.
Suponhamos que certo individuo seja um cristão verdadeiro, mas descubra dentro de si um pecado poderoso, que o faz cativo de sua lei, consumindo-lhe o coração com problemas e deixando-lhe perplexo o pensamento, e a alma enfraquecida para os deveres da comunhão com Deus,  inquietando-o, talvez maculando-lhe a consciência e deixando-o exposto ao endurecimento  pelo engano do pecado.
       O que fará? Como terá disposição para lutar contra esta transgressão, mesmo sem conseguir destruí-la totalmente, ser capaz de manter a força , o poder e a paz, em comunhão com Deus?
       Vamos responder a essa pergunta, seguindo alguns passos. No primeiro, mostrarei o que é mortificar um pecado, tanto de modo negativo quanto positivo. No segundo, oferecerei orientação geral no tocante às condições sem as quais é totalmente impossível alguém mortificar verdadeira e espiritualmente um pecado. No terceiro, explicarei os pormenores de como se faz isso, levando em conta que não estou tratando da doutrina da mortificação de modo geral, mas somente de uma referência ao caso específico proposto anteriormente.
       Primeiro: O que é mortificar um pecado. a) Mortificar o pecado não é matá-lo totalmente nem desarraigá-lo e destrui-lo, de modo que não tenha mais domínio sobre nós nem morada em nosso coração. É verdade que o alvo é esse, mas não será alcançado nesta vida. Nao existe ninguém que se empenhe realmente em mortificar um pecado que não tenha como alvo, intenção e desejo a total destruição dele, de modo que não deixe nem raiz nem fruto no coração e na vida.
       O alvo é que o pecado não exista mais. Embora seja possível, mediante o Espírito e a graça de Cristo, alcançar sucesso e conquistas maravilhosas contra o pecado, de modo que o individuo tenha triunfo quase constante sobre ele, não se deve esperar matá-lo ou destruí-lo totalmente nesta vida, a ponto de ele não mais existir. O apóstolo Paulo nos dá certeza disso, ao afirmar no Livro de Filipenses que:

Filipenses 3:12. Não que já a tenha alcançado ou que seja perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo.

       Ele era um santo escolhido, um modelo para os cristãos, alguém sem igual neste mundo, e por essa razão atribui perfeição a si mesmo em comparação com outras pessoas (v.15). Mas, mesmo assim, não alcançara o alvo; ele não era perfeito, mas estava no caminho. Ele ainda tinha um corpo vil, como também nós temos, o qual deverá no final ser transformado pelo poder de Cristo (v.21). Para Deus é melhor que em nada estejamos completos em nós mesmos, a fim de que, em todas as coisas, sejamos completos em Cristo, que é o melhor para nós (Colossenses 2:10).
       b) mortificar um pecado também não é a dissimulação do  pecado. Quando um individuo, por alguns aspectos externos, deixa de lado a prática de algum pecado, as pessoas talvez o considerem transformado. No entanto, Deus sabe que ele acrescentou à sua iniquidade anterior a hipocrisia maldita e que entrou num caminho mas certo para o inferno do que aquele em que antes trilhava. Ele conseguiu um coração diferente do que tinha, mais astuto, mas não um coração novo e mais santo.
       c) a mortificação do pecado não consiste no aperfeiçoamento de uma natureza quieta e sóbria. Algumas pessoas têm a vantagem, por sua constituição natural, de não estarem tão expostas às paixões ingovernáveis (desenfreadas) e as emoções tumultuosas que outras pessoas sentem.
       Com isso, essas pessoas podem cultivar e melhorar sua tendência e temperamento naturais por meio da disciplina, da consideração e da prudência, conseguindo dar a si mesmos e aos outros, a impressão de serem individuos muito mortificados ( “mais santos”, acréscimo nosso), quando, na verdade, o coração deles talvez seja um esgoto fétido de todas as abominações.
       d) a mortificação não ocorre quando apenas nos afastamos do pecado. Simão, o mago, deixou a feitiçaria por algum tempo, mas a concupiscência e a ambição que o levavam a praticar essa obra ainda permaneceram e passaram a agir de outra maneira.

Atos 8:9,18-23. E estava ali um certo homem chamado Simão, que anteriormente exercera naquela cidade a arte mágica e tinha iludido a gente de Samaria, dizendo que era uma grande personagem. (...). E Simão, vendo que pela imposição das mãos dos apóstolos era dado o Espírito Santo, lhes ofereceu dinheiro. (...). Mas disse-lhe Pedro: (...), pois cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro. Tu não tens parte nem sorte nesta palavra, porque o teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, dessa tua iniquidade e ora a Deus, para que, porventura, te seja perdoado o pensamento do teu coração; pois vejo que estás em fel de amargura  em laço de iniquidade (acréscimo nosso).

       Percebe-se aqui, nesta passagem, que a sua profissão de fé, ou seja, de ter deixado a feitiçaria (arte mágica), mas a sua concupiscência ainda era poderosa dentro dele; é a mesma concupiscência, mas sua correnteza foi desviada. Agora ela se apresenta e opera de outra maneira, mas continua sendo a velha plenitude da amargura.
       O individuo pode ter consciência do seu pecado, colocar-se contra as suas manifestações, tomar cuidado para ele (o pecado) não voltar a surgir da mesma forma, mas ao mesmo tempo, pode deixar o velho hábito corrompido expressar-se de outra maneira (o velho homem adormecido, voltar a acordar, acréscimo nosso).
       É comparável a pessoa que raspa e limpa sua ferida aberta e se considera curado; mas nesse ínterim (intervalo) sua carne infecciona por causa da putrefação da mesma purulência e a ferida surge em outro lugar.  Por exemplo; um homem de mais idade, normalmente não irá persistir na busca de conc upiscências de jovens, embora nunca tenham mortificado qualquer delas.
       O mesmo acontece com aqueles que trocam suas concupiscências, passando a servir a outra: troca a soberba pelo mundanismo; a sensualidade pelo farisaísmo; a vaidade pelo desprezo do próximo; não pense que mortificou e abandonou o pecado, mas, simplesmente, mudou de dono e continua como escravo.
       e) vitórias ocasionais sobre o pecado não equivalem a mortificá-lo. Duas são as situações em que o individuo pode imaginar que mortificou o pecado: a primeria situação é quando o pecado surge de modo lastimável (inesperado) perturbando-lhe a paz, aterrorizando a consciência, causando-lhe medo, tornando-se evidente provocação a Deus.
       Isso enche de ódio de si mesmo por não ter conseguido evitá-lo. Levando-o recorrer a Deus, a clamar pela vida e colocando-se contra ele. O ser humano inteiro, espiritual e natural, desperta, o pecado se recolhe, não surge mais, mais reaparece como um fantasma diante dele (acredito ser parecido com a recaída do dependente químico, que já está algum tempo sem usar drogas; mas que, de um instante para outro,  não resiste e usa novamente, ficando com ódio de si mesmo, acréscimo nosso).
       A segunda situação é quando o pecado ocorre num periodo de castigo, calamidade ou aflição premente. O coração do individuo começa a ocupar-se de pensamentos e de planos para fugir das angústias, dos temores e dos perigos imediatos. É a ira de Deus envolvida nessas aflições que atormenta a pessoa convicta do pecado. Para livrar-se disso, o ser humano, em ocasiões como essas, adota resoluções contra seus pecados.
       Desta forma, o pecado parece silencioso, não se mexe, aparentemente mortificado. Não porque tenha recebido uma ferida sequer, mas simplesmente a alma recuperou suas faculdades, com pensamentos contrários à operação do pecado. Entretanto, se esses pensamentos são deixados de lado, o pecado volta à vida e ao vigor anterior. Um bom exemplo para demonstrar esse estado de espírito do qual falo, pode ser visto no Salmo 78:

Salmo 78:32-37. Com tudo isso, ainda pecaram e não deram crédito às suas maravilhas. Pelo que consumiu os seus dias na vaidade e os seus anos, na angústia. Pondo-os ele à morte, então, o procuravam; e voltavam, e de madrugada buscavam a Deus. E lembravam-se de que Deus era a sua rocha, e o Deus Altíssimo, o seu Redentor.Todavia, lisonjeavam-no com a boca e com a língua lhe mentiam. Porque o seu coração não era reto para com ele, nem foram fiéis ao seu concerto.

       Não duvido (o autor) de que, quando buscavam a Deus e se voltavam para ele com fervor, o faziam com pleno propósito de coração, visando a abandonar seus pecados. Isso é revelado pelo verbo empregado “Voltavam”; voltar ao Senhor ou converter-se a ele é o mesmo que renunciar ao pecado. É o estado de humilhar-se muito em tempos de aflição. E, muitas vezes, no coração dos próprios cristãos existe uma grande fraude.
       Há esses e muitos outros meios pelos quais as pobres almas enganam-se e supõem ter mortificado suas iniquidades, quando estão de bem com a vida, saudáveis; porém, a cada momento, a concupiscência vem à tona para maior perturbação e inquietude das almas.

Cap. 6  Descrição pormenorizada da mortificação do pecado específico.

       As várias partes e os graus da mortificação. 1) O enfraquecimento habitual de sua raiz e seu principio. O poder de tentação da concupiscência. Diferenças de grau desse poder em pessoas e ocasiões diversas. 2) A luta constante contra o pecado; considerando seus aspectos. 3) Sucesso na luta contra o pecado. Resumo do argumento.

6:1 O Enfraquecimento Habitual

       Toda concupiscência é um hábito ou disposição, depravado que inclina continuamente o coração para o mal, daí a descrição daquele que não mortificou verdadeiramente concupiscência alguma: “... toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre para o mal” (Gênesis 6:5). Esse individuo sempre é dominado  pela forte tendência e inclinação ao pecado.
       A razão disso é que o homem natural nunca está constantemente correndo atrás de determinada concupiscência, antes tem de servir a muitas delas, cada uma clamando para ser atendida. Daí a ser impulsionado por várias delas, embora de modo geral tenda à satisfação do ego.
       Um hábito pecaminoso e depravado difere de todos os hábitos naturais ou morais (assim como em muitos outros aspectos). Enquanto estes inclinam a alma suave e apropriadamente para o bem, os hábitos pecaminosos impulsionam com impeto e violência. De tal forma que se diz que as concupiscências “lutam” ou “guerreiam contra a alma” (1 Pedro 2:11).
            Isto é, rebelam-se ou levantam-se em guerra contra a conduta e a oposição que as enfrentam, para “levar prisioneiro” (cativo) ou efetivamente cativar após o sucesso na batalha, e todas operam com grande violência e impetuosidade (Romanos 7:23). O pecado obscurece a mente, apaga as convicções, remove a razão, interrompe o poder e influencia quaisquer considerações que surjam para obstrui-lo e, assim, irrompe (surge) em chamas, apesar de tudo.
            Por isso, precisamos evitar o pecado, pois ele pode surgir com tamanha violência, gravidade e frequência e, assim, conceber, tumultuar, provocar, seduzir, inquietar, conforme tende naturalmente a fazer.

Tiago 1:14-15. Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depoois, havendo a concupiscência concebido (gerado), dá a luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte  (acréscimo nosso).

       Desta passagem de Tiago, quero acentuar  que o fato desta inclinação ao pecado dever ser reconhecido com duas limitações:  A primeira deve-se ao fato de que, certa concupiscência ou um individuo  com determinada concupiscência, pode, pelas circunstâncias, caráter, personalidade, temperamento, tipo de vida apropriado ou em ocasiões específicas, receber impulsos e reforços que lhe deem muito mais vida, poder e vigor do que outra concupiscência do mesmo tipo e natureza em outro indivíduo.
       Neste caso, ela pode se tornar violenta e impetuosa acima de todas as demais ou mais do que a mesma concupiscência em outra pessoa. Desse modo, suas correntezas obscurecem a mente de tal maneira que, embora o ser humano se lembre de coisas boas do passado, estas não terão poder nem influencia sobre a vontade, que só liberará emoções e paixões corruptas. A concupiscência é fortalecida pela tentação: quando a tentação coincide com a concupiscência, concede-lhe nova vida, vigor, poder, violência e ira, que antes parecia não possuir nem ter capacidade de praticar.
       A segunda é que algumas concupiscências são muito mais perceptíveis e discerníveis em sua atuação violenta do que outras. (...). O amor ao mundo ou coisa semelhante, não é menos predominante numa pessoa do que esse pecado, contudo não causa tão grande combustão no individuo inteiro. (...). A concupiscência deles implica ações que não provocam tumulto na alma,  e a respeito delas se preocupam com mais calma, pois, no caso deles, o próprio intimo de sua natureza não é tão fortemente atacado como seria o de outra pessoa.
       Eu diria, que a primeira coisa a fazer é enfraquecer esse hábito por meio da mortificação, de modo que não impulsione nem tumultue como antes, não seduza nem desvie, não deixe o individuo inquieto nem perplexo. Significa, segundo descrito  em Gálatas 5:24 - Crucificar a carne”, remover seu sangue e o ânimo que lhe dão força e vigor, desgastar o corpo mortal dia após dia. O apóstolo Paulo escreve sobre isso em Romanos 6:6, quando diz:

Romanos 6:6-7. Sabendo isto: que o nosso velho homem foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, a fim de que não sirvamos mais ao pecado.  Porque aquele que está morto está justificado do pecado (acréscimo nosso).

       O apóstolo quis dizer com isso, que o “corpo do pecado” precisa ser destruído, o poder do pecado deve ser enfraquecido e abolido pouco a pouco, a fim de que “não mais sejamos escravos do pecado”, ou seja, que o pecado não mais nos incline nem impulsione de modo tão eficaz, escravizando-nos, conforme fazia antes. O individuo pode derrubar os frutos amargos de uma árvore ruim até se esgotarem, mas enquanto a raiz permanecer com força e vigor, derrubar os frutos atuais não a impedirá de produzir mais frutos ruins.
       Assim agem muitas pessoas, tornando-se em verdadeiros tolos. Colocam-se com toda diligência e sinceridade contra qualquer erupção (explosão)da concupiscência, porém, deixam o princípio e a raiz intocáveis, fazendo pouco ou quase nenhum progresso nessa obra da mortificação.

6:2 Em Lutas e Contendas Constantes Contra o Pecado

       Quando o pecado é forte e vigoroso, a alma dificilmente consegue enfrentá-lo. Ela suspira, geme e lamenta, fica perturbada, conforme disse Davi a seu respeito, mas raramente percebe o pecado: “... minhas culpas me alcançaram e já não consigo ver” (Salmo 40:12). Vários fatores são necessários e estão envolvidos na luta contra o pecado. vamos ver alguns deles:
       a) Saber que o individuo tem esse inimigo a enfrentar, tomar conhecimento dele (...).  Essa luta é árdua e arriscada, pois refere-se as coisas da eternidade. Quando os homens tem ideias levianas e passageiras sobre seus desejos, não há sinal de estarem mortificados ou a caminho da mortificação.
       Infelizmente, muitas pessoas tem pouco conhecimento do principal inimigo que carregam por aí em seu intimo. Por isso, estão prontas a justificar-se e a ter pouca tolerância com a repreensão ou admoestação, por não reconhecerem que estão correndo perigo (2 Crônicas 16:10).
       b) O início dessa luta é conhecer os caminhos, as artimanhas, os métodos e os episódios de sucesso do pecado. É necessário pesquisar e saber os planos e designos de nossos inimigos. Nisto reside a pericia na condução das guerras. Sem essa estratégia, todo esforço bélico seria brutal.
       Mesmo nos momentos de paz, devemos considerar que nossos inimigos continuam agindo e avançando sempre, ganhando vantagens e prevalencendo e, assim, acontecerá se não for impedida (a mortificação da carne e do pecado). Disse Davi: “... meu pecado sempre me persegue” (Salmo 51:3).
       Precisamos tomar conhecimento sobre o pecado, suas sutilezas, ocasiões, quais são suas petições, seus fingimentos, seus raciocinios, suas estratégias e suas desculpas. Como colocar a sabedoria do Espírito contra a astúcia do velho homem; rastrear essa serpente em todos os seus movimentos contorcidos e tortuosos. Precisamos estar sempre em estado de prontidão, pois essa é a boa parte de nossa guerra.
       c) Lançar dia a dia sobre o pecado todos os elementos (...), os quais o atingem, destruindo-o e matando-o. Esse é o auge dessa luta. Quem se empenha nesse combate, não pense que sua concupiscência está morta só porque ficou quieta, mas continua lutando para infligir-lhe novas feridas, novos golpes, todos os dias. Como diz o apóstolo Paulo:

Colossenses 3:5-6. Mortificai, pois, os vossos membros que estão sobre a terra: a prostituição, a impureza, o apetite desordenado, a vil concupiscência e a avareza, que é idolatria. Pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.

       O que é idolatria? É permitir que as coisas se tornem o centro dos nossos desejos, valores e dependência, usurpando (apoderar-se violentamente) assim o lugar da confiança e fé no próprio Deus. Por esta razão, neste versículo, o apóstolo Paulo insere a palavra avareza (a cobiça dos bens terrenos ou materiais) chamando-a sinonimamente de idolatria (acréscimo nosso).

6:3  A Mortificação Consiste em Sucesso
       O sucesso frequente contra qualquer concupiscência é outra parte e evidência da mortificação. O significado que dou aqui ao sucesso, seria a vitória sobre o pecado e a perseguição dele até o domínio completo.  Por exemplo, quando descobrimos o pecado em operação em qualquer momento, seduzindo, criando imaginações para satisfazer os desejos da carne e para realizar suas concupiscências, o coração captura imediatamente o pecado e o submete à lei de Deus e ao amor de Cristo, condena-o e passa a aplicar-lhe a pena com a máxima severidade.
       O grande alicerce da mortificação é o enfraquecimento da disposição interna do pecado para inclinar, seduzir, impelir ao mal, rebelar, opor-se, lutar contra Deus.  A mortificação se faz pela implantação, habitação e pelo estimulo constantes do principio da graça, que se opõe diretamente ao pecado e que o destroi.  Sendo assim, mediante a implantação e o crescimento da humildade, o orgulho é enfraquecido; a paixão é vencida pela paciência; o amor deste mundo, pela consciência do céu.
       São as graças do Espírito ou sua habitual graça, operando de modos variados por meio do Espírito Santo, segundo a variedade ou a diversidade de propósito a que se destinam.  A prontidão, a vivacidade e o vigor do Espirito ou do novo homem opõem-se á referida concupiscência, combatendo-a com ânimo, por todos os modos e por todos os meios deteMrminados para isso.
       O sucesso, em vários graus, resultará das atitudes citadas anteriormente: a) o enfraquecimento da disposição interna do pecado e, b) a prontidão, vivacidade e o vigor do Espírito ou do novo homem opondo-se à concupiscência. E mais, se a indisposição moral não obtiver vantagem invencivel sobre a situação natural, talvez implique tamanha conquista geral que a alma praticamente nem sinta mais a oposição do pecado.

Cap. 7  Regras Gerais sem as quais nenhuma concupiscência será mortificada.

       Não há mortificação sem conversão. O perigo de pessoas não regeneradas tentarem a mortificação do pecado. Considerando o dever dos inconversos quanto ao assunto da mortificação. Descoberta, portanto, a inutilidade das tentativas e das regras católicas que visam a mortificação.  Passemos a considerar os meios que a alma utiliza para a mortificação de qualquer concupiscência ou pecado específico, do qual satanás tira vantagem para inquietá-la e enfraquecê-la. Vejamos as regras e os principios gerais para se chegar a mortificação do pecado.

       7:1 É necessário haver primeiro  a conversão: caso a pessoa não seja verdadeiramente enxertada (convertida) em Cristo, nunca poderá mortificar nem um pecado sequer. A mortificação é um obra de/para Cristãos: “... se pelo Espírito fizerem morrer...” (Romanos 8:13); para os quais não há conversão. Quem deve mortificar a carne do pecado? Aquele que ressuscitou com Cristo, cuja vida está escondida com ele em Deus (v.1-3) e que se manifestará com ele em glória.
       O individuo não regenerado talvez faça algo semelhante, mas essa obra propriamente dita, aceitável a Deus, jamais conseguirá realizar. Não existe a morte do pecado sem a morte de Cristo. Nós conhecemos as tentativas de mortificação praticadas pelos Monges Católicos Romanos, em seus votos, penitencias e abstenções.
       Ouso dizer a respeito deles (dos monges)  aquilo que o apóstolo Paulo disse de Israel quanto a justiça (Romanos 9:31-32): Seguiram a mortificação, mas não a alcançaram. Por quê? Porque não a buscavam pela fé, mas como se fosse pelas obras.  É o mesmo estado e a mesma situação de todos nós que, em obediência à convicção e à consciência despertada, nos esforçamos por abandonar o pecado. Procuram desfazer-se dele, mas não conseguem.
       Assim acontece no presente caso: o pecado deve ser mortificado, mas algo deve ser feito em primeiro lugar, a fim de nos capacitar para isso: Somente o Espírito pode mortificar o pecado. Portanto, o individuo que nao tem o Espírito jamais poderá mortificá-lo. A grande pergunta é: Como se obtém o Espírito? Ele pertence ao próprio Cristo e, conforme diz as Escrituras “... se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo” (Romanos 8:9).
       Sendo assim, precisamos pertencer a Cristo para obtermos o seu Espírito. Os cristãos (seguidores de Cristo) que têm o Espírito de Cristo não estão na carne, pois o Espírito de Deus habita nele. Não existe outra forma ou maneira de ser liberto da condição de estar na carne senão mediante o Espírito de Deus. Portanto, serão vãs toda e qualquer tentativa de mortificar a carne (o pecado), quando não se tem participação em/com Cristo.
       7:2  A  mente e a alma devem ficar ocupadas com as coisas que fazem parte de seu dever - Cristão.  Infelizmente, nem sempre isso acontece. É muito comum ocuparmos nossa mente e alma com os deveres proprios dos seres humanos (desejos, vontades e deleites). Desta forma, os homens evitam chegar direta e gloriosamente a Deus, pois buscam as próprias maneiras de se chegar a Ele, ou seja, com seus proprios meios e esforços (ou por seus méritos). Essa é uma das fraudes mais comuns por meio das quais os seres humanos arruinam a própria alma (acréscimo nosso).
       a) Quando o homem sofre com o pecado, a ponto de não conseguir descanso, em vez de ir ao Médico dos médicos da alma e de conseguir a cura total e global, silencia a consciência por meio dessa luta contra o pecado e se acomoda, sem na verdade ter recorrido a Cristo (Romanos 10:4).
       b) Por esses meios, os homens se dão por satisfeitos, achando que seu estado é bom, desde que pratiquem uma obra boa em si mesma e que não façam isso para ser vistos. Sabem que estão realizando a obra com sinceridade, portanto se endurecem em uma espécie de justiça propria.
       7:3  Quando um individuo passa algum tempo se iludindo, enganando a própria alma, e descobre, depois de um longo periodo, que seu pecado não foi mortificado ou que apenas trocou um pecado por outro, começa a pensar que toda a luta foi em vão e que nunca conseguirá prevalecer.
       Esta pessoa está apenas represando as águas que a ameaçam. Digo, portanto, que a mortificação é obra dos cristãos e somente destes. Matar o pecado é obra de vivos. Esta é uma obra realizada apenas pela fé e específica fé.  Portanto, se alguém pretende mortificar algum pecado, tome cuidado de estar em Cristo, pois, de outra forma, jamais conseguirá.
       Quero acrescentar aos Pregadores da Palavra de Deus ou aos que aspiram a esse ministério, com a ajuda de Deus, que é dever deles exortar os homens a respeito de seus pecados e enfatizar pecados específicos, sem nunca esquecer que isso deve ser feito de acordo com a finalidade genuína da Lei e do Evangelho. Ou seja, que aproveitem sua pregação contra o referido pecado para desmascarar a condição em que o pecador se acha.
       Caso não ajam assim, podem estar levando homens (pessoas) à formalidade e à hipocrisia, sem alcançar a verdadeira finalidade da pregação do Evangelho. Um pastor hábil lança o machado à raiz e sempre procura atingir o coração, vndo a denunciar pecados específicos de pessoas ignorantes e não regeneradas, das quais o mundo está cheio, e esta atitude é uma boa obra.
       Precisamos acreditar que Deus pode chegar a brilhar no coração dessas pessoas, para lhes dar o conhecimento da glória revelada em seu Filho Jesus Cristo, para poderem enxergar os disparate de seus caminhos atuais.

Cap. 8 Proposta a Segunda Regra Geral:

       Sem sinceridade completa para a mortificação de todas as concupiscências, nenhuma concupiscência será mortificada. A mortificação parcial sempre provém de um princípio corrupto. A perpelexidade da tentação por uma concupiscência é frequentemente castigo por outras negligências.
       O segundo princípio proposto aqui é que, sem sinceridade e diligência na obediência completa, não se obtém a mortificação de concupiscência alguma que o perturbe. O primeiro princípio dizia a respeito à pessoa;  este, à própria concupiscência. Oferecerei algumas explicações dessa posição.
       O indivíduo encontra uma concupiscência que o leva à condição descrita acima; ela é poderosa, forte, conflitante, leva-o cativo, perturba, inquieta, tira-lhe a paz. Ele não consegue suportá-la, por isso, volta-se contra ela, geme pelo sob seu peso, suspira para ser liberto. Ao mesmo tempo, talvez em outros deveres, tais como a comunhão constante com Deus, a leitura, a oração, a meditação e em outras atividades que não tem a ver com a concupiscência que o perturba. Ele é frouxo e negligente.
       Esta é a condição que quase sempre atinge o ser humano em sua peregrinação. Os israelitas, convictos de seus pecados, aproximaram-se de Deus com muita diligência e sinceridade, com jejum e oração (Isaías 58:5-7). Entretanto, Deus rejeitou tudo isso, pois o jejum deles é um remédio que não lhes trará cura, e a explicação é oferecida nos versiculos de 5 a 7:  “Porque se dedicavam exclusivamente a esse dever, cumprindo-o com diligência, mas em outros eram negligentes e descuidados”.
       Inúteis também serão as tentativas de quem procurar estancar a hemorragia do pecado e a imundície na alma, se não for igualmente cuidadoso em relação a seu temperamento e a sua constituição espiritual. Isso acontece pois:
       1. Esse tipo de esforço em favor da mortificação procede de um princípio, fundamento ou alicerce corrupto. Sendo assim, nunca produzirá uma boa solução. O ódio ao pecado, não só por ser irritante e inquietante, e o senso do amor a Cristo são a base de toda mortificação espiritual verdadeira.
       Qual é a razão? Isso perturba você, tira sua paz, enche-lhe o coração de tristeza, aflição e medo, você não tem descanso por causa disso. É muito simples; você tem negligenciado suas orações, leitura da Palavra de Deus, tem sido negligente e descuidado no modo de vida em outros assuntos totalmente diferentes da concupiscência que o incomoda.
       Se você odiasse o pecado e todos os caminhos da iniquidade, seria mais vigilante contra tudo quanto entristece e inquieta o Espírito de Deus do que em relação ao que entristece e inquieta a sua alma. Caso o pecado não o inquietasse, você não se importaria com ele. A obra de Deus consiste de uma obediência completa. Portanto, assim diz o apóstolo Paulo: “(...) purifiquemo-nos de tudo o que contamina o corpo e o espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus” (2 Coríntios 7:1). Precisamos entender que Deus não quer partes de seu ser, mas você por completo.
       2. Como sabe se Deus não permitiu que a concupiscência que o deixou perplexo obtivesse força e poder para castigá-lo por outras negligências suas e pela fraqueza comum em seu viver diante dele?  A fúria e o predomínio de determinada concupiscência são quase sempre fruto e consequencia de uma vida descuidada e negligente em geral. E isso se dá por duas razões:
       a) É seu efeito natural: A concupiscência se acha no coração de todas as pessoas, até no das melhores, enquanto viverem. Enquanto o ser humano mantém vigilância diligente do coração, raiz e fonte de tudo, enquanto guarda o coração acima de todas as coisas, de onde brotam as questões da vida e da morte, a concupiscência murcha e morre ali mesmo.
       No entanto, se ele se torna negligente quanto a esta vigilância, a concupiscência brota, adquire força e abre o caminho para prosseguir, desta forma vai pressionando até desobstruir a passagem, passando a inquietar e a incomodar o indivíduo, sendo muito dificil refreá-la.
       b) Deus ás vezes permite que a concupiscência seja o castigo por todas as nossas outras concupiscências. No caso dos impios, o Senhor os entrega a um pecado como castigo maior por terem cometido outro: “Pelo que Deus os abandonou  as paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário a natureza” (Romanos 1:26).
       Mesmo aos seus, Deus pode deixar isso acontecer, e deixa, com indisposições irritantes ou para impedir, ou para curar algum outro mal.  Veja o exemplo do apóstolo Paulo, Ele enviou um mensageiro de satanás para que não se orgulhasse com a riqueza das revelações espirituais: “E, para que não se exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de não me exaltar” (2 Coríntios 12:7).
       Desta forma, enquanto habitar no coração alguma deslealdade que permita certas negligências que levem a não persistir na perfeita obediência, a alma continuará fraca, por não deixar a fé fazer sua obra completa, e egoísta, por levar mais em conta a perturbação do pecado que sua culpa e imundície.

Cap. 9 Instruções Específicas com respeito ao argumento proposto no capítulo anterior:

       Diretriz 1: Considere os sintomas perigosos que acompanham qualquer concupiscência: a) É crônica. b) A paz que se consegue com ela; várias maneiras de alcança-la. c) A frequência do sucesso de suas seduções. d) A alma luta contra ela com argumentos tirados somente do fato. e) É acompanhada de severidade judiciária. f) Resiste a tratamentos específicos da parte de Deus. O estado das pessoas em que se encontram essas coisas.
       Passaremos agora a propor diretrizes específicas à alma para orientá-la a ficar consciente de alguma concupiscência ou indisposição, meu propósito principal aqui. Algumas dessas diretrizes são prévias e preparatórias (1º Tipo); outras, contém a obra propriamente dita (2º Tipo).
       Do primeiro tipo, temos as seguintes: Diretriz 1: considere os sintomas perigosos que acompanham sua concupiscência; veja se ela contém algum sinal mortífero. Se contém, devem ser empregados remédios específicos; um método comum de mortificação não surtirá efeito. Você poderá perguntar: Que sinais ou sintomas perigosos são esses, acompanhantes desesperados de desejos do intimo do coração? Citarei alguns deles pelo nome:
       1) Cronicidade: se já ficou muito tempo em seu coração, corrompendo-o, se permitiu que permanecesse no poder e que predominasse durante longo periodo sem fazer qualquer esforço vigoroso para matá-lo e para curar as feridas que lhe causou, sua concupiscência é perigosa. Você permitiu, por muito tempo, que o mundanismo, a ambição, a ganância intelectual devorassem outros deveres pelos quais deveria manter comunhão constante com Deus?
       Assim aconteceu com Davi: “Minhas feridas cheiram mal e supuram (transformar-se em pus) por causa da minha insensatez” (Salmo 38:5). Depois de ter ficado por muito tempo no coração, corrompendo, supurando, gangrenando, a concupiscência deixa a alma em condição lastimável. Neste caso, o tratamento comum de humilhação nao surtirá efeito.
       O convívio com a concupiscência por muito tempo no coração, leva a alma a se habituar com ela, tornando-se familiar à mente e à consciência, de modo que estas não se assustem com ela, estranhando-a, mas se sintam à vontade, acostumando-se.  Se não houver alguma atuação extraordinária a ser empreendida, essa pessoa não tem a mínima base para esperar ter, finalmente, paz.
       2) As petições secretas do coração para ser deixado e mantido em paz apesar de abrigar alguma concupiscência, sem nenhuma tentativa cristã vigorosa de mortificá-la, são outro sintoma perigoso de uma indisposição moral fatal no coração. Existem várias maneiras de se chegar a esta situação. Citarei algumas:
       a) quando surgem pensamentos desconcertantes sobre o pecado, o individuo, em vez de  se esforçar para destrui-los, busca em si evidências de que está em boas condições, apesar de abrigar esse pecado de concupiscência, de modo que conviva bem com ele. A pessoa acha que tem o controle sobre o pecado, ou seja, situação parecida com o dependente químico que não aceita e não admite que é dependente (viciado), achando que a qualquer momento pode dar um basta nesta situação e parar de usar a substãncia psicoativa (acréscimo nosso).
       Um periodo de provação, tentação e inquietação do coração por causa do pecado é uma moldura de prata a destacar essa maçã de ouro, conforme menciona Salomão. No entanto, agir assim, acalmando a consciência que chora e clama por outra solução, é engenhosidade desesperada de um coração apaixonado pelo pecado.
       Era assim que os Judeus, sentindo a consciência inquieta e convencida pela pregação de nosso Salvador, apoiavam-se no argumernto de serem filhos de Abraão e, por causa disso, aceitos diante de Deus. Dessa forma, sentiam-se bem, apesar de todas as suas iniquidades abomináveis, para a própria ruina total. O que se espera de um coração como esse?
       b) Essa fraude acontece quando se aplica a graça e a misericórdia a um pecado não mortificado ou quando não houve esforço sincero para mortificá-lo.  Trata-se de um coração por demais comprometido com o amor ao pecado. Quando alguém, assim como Naamã, com respeito a seu culto na casa de Rimom (2 Reis 5:18), tem pensamentos secretos no coração: nas demais coisas, andarei com Deus, “mas que o Senhor me perdoe por uma única coisa...”, é triste a sua condição.
       É característica marcante no hipócrita, transformar a graça de Deus em leviandade (Judas 4). Mas não duvido de que, mediante a astúcia de Satanás e a própria incredulidade que permanece nos filhos de Deus, estes ás vezes caiam na armadilha dessa fraude do pecado.
       É preciso entender que a nossa carne quer ser acalentada com base na graça e está pronta a distorcer e a corromper cada palavra dita a respeito da graça, para atingir os próprios alvos e propósitos. Portanto, aplicar a misericórdia a um pecado que não foi rigorosamente mortificado é submeter o evangelho aos propositos da carne.
       Embora um individuo não se entregue totalmente à sua vontade, ainda mantém em si uma disposição errada. E prevalece em seu coração o amor secreto pelo pecado. As feridas desse indiviudo cheiram mal, pois estão apodrecendo e, caso não haja livramento rápido, chegará às portas da morte.
       3) Quando a sedução do pecado obtém sucesso constante em aprovar e em fazer prevalecer sua vontade, trata-se de mais um sintoma perigoso.
       Quero dizer com isso, que quando o pecado obtém algum consentimento da vontade, que o considera agradável, mesmo que esse pecado não seja concretizado externamente, não deixa de ter conquistado algum sucesso.
       Acredito que neste caso se enquadre muito bem, o texto Bíblico que diz, mais ou menos assim: “o homem que cobiçar e desejar uma mulher ... já cometeu o pecado com ela” (acréscimo nosso). O indivíduo pode até não conseguir concretizar (por questões externas) o pecado, ao ponte que chamamos deconsumação, mas, em seu coração houve a intenção de consumá-lo. Neste caso, afirmo que o pecado já obteve seu êxito.

Tiago 1:14-15. Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido (nascida ou gerada), dá a luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.

       Se alguma concupiscência consegue prevalecer até esse  ponto na alma de qualquer pessoa, sua condição possivelmente será muito ruim, e ela não está de fato regenerada, ou seja, não foi convertida.
       4) Quando alguém luta contra o pecado somente com argumentos baseados no resultado ou no castigo envolvidos, é sinal de que definitivamente o pecado tomou posse de sua vontade e, portanto, há excesso de maldade em seu coração.
       Essa pessoa, não se opõe em nada a sedução do pecado em seu coração, a não ser pelo medo da vergonha de ser descoberto entre os homens ou medo do inferno após o juizo divino, mas está decidida a continuar cometendo o pecado.
       Os que são/estão em Cristo e motivados pelos princípios cristãos, levam em conta para opor-se a esta sedução e a qualquer outra ação e esforços para refrear a operação da concupiscência no coração, apegando-se a alguns desses princípios, entre eles: a morte de Cristo, o amor de Deus, a natureza detestável do pecado, a preciosidade da comunhão com Deus e o ódio profundamente arraigado ao pecado em si.
       Assim foi o caso de José: “... Como poderia eu, então, cometer algo tão perverso e pecar contra Deus? (Gênesis 39:9)  Que não cedeu aos intentos e desejos da mulher de Potifar, seu senhor (acréscimo nosso).  Como também se portou e nos recomendou o apóstolo Paulo; ao dizer que: “Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus” (2 Coríntios 7:1).
       O apóstolo estava a dizer que o cristão precisa romper totalmente com toda forma de transigência (tolerância) ímpia e resistir o pecado, isto é, aos desejos da carne (acréscimo nosso). Se não conseguirmos lutar contra o pecado usando as armas cristãs (Efésios 6:10-14), mas somente pelo medo do inferno e do juizo, fica evidente que o pecado tomou posse posse de nossa vontade e disposição de alma a ponto de prevalecer e de conquistar.
       Nesse sentido, a pessoa decaiu da graça regeneradora e voltou ao poder da lei. Não é uma grande provocação contra Cristo que os seres humanos repudiem seu jugo leve e suave e se prostem debaixo do jugo férreo da lei, por mera satisfação de suas concupiscências? É hora de olhar a sua volta: o mal (o pecado) jaz à porta. O grande argumento do apóstolo Paulo para evidenciar que o pecado não terá domínio sobre os cristãos, é que estes não estão sujeitos à lei, mas á graça (Romanos 6:14).
       5) Outro sintoma perigoso, ao considerar o estado de inquietação produzido pela concupiscência, é a possibilidade de severidade judicial ou de castigo disciplinar.
       Não duvido que Deus que Deus ás vezes deixe até alguns de seus fiéis sujeitos ao poder desconcertante de alguma concupiscência ou pecado para, no minimo, corrigi-los por causa de pecados, negligências ou tolices cometidos anteriormente. Que esse é o modo de Deus lidar com os não regenerados, ninguém duvida. Mas como saber se, ao ser deixado à inquietude de uma indisposição moral, há nisso algo de atuação disciplinadora de Deus?
       Qual era o estado de sua alma antes de cair nos laços do pecado do qual agora se queixa tanto? Negligenciou com seus deveres? Viveu indevidamente só para si mesmo? Pesa sobre você a culpa de algum pecado grave do qual não se arrependeu?  Às vezes, pode ser permitido um novo pecado, bem como enviada uma aflição nova, a fim de trazer à lembrança um pecado antigo.
       Você tem deixado de aproveitar as oportunidades (oferecidas pela graça divina) de glorificar  a Deus entre seus contemporâneos? Você tem se conformado com o mundo e com as pessoas de mundo por se multiplicarem as tentações nos dias em que vive? Se esse tem sido seu estado, acorde e invoque a Deus. Você está profundamente adormecido no meio de uma tempestade (Jonas no barco e Jesus na popa do barco).
       6) Quando a concupiscência já resistiu à atuação específica de Deus.  Deus lidou com a concupiscência que predominava em seu povo de diferentes modos, pela aflição e pelo abandono, mas as pessoas resistiram a tudo.

Isaías 57:17. Por causa da sua concupiscência perversa fiquei indignado e o feri; fiquei irado e escondi o meu rosto. Mas ele continuou extraviado, seguindo os caminhos que escolheu.

       Essa é uma condição lastimável, da qual o indivíduo não pode ser liberto senão pela pura graça soberana. Deus ás vezes, em suas disposições providenciais, encontra-se com um indivíduo e lha fala especificamente a respeito do mal em seu coração, como no caso dos irmãos de José, que o venderam para o Egito.
       Deus pode falar por meio do perigo, da aflição, da perturbação ou da doença que o ser humano sofre. Ás vezes, Deus leva o indivíduo, quando este lê a Palavra de Deus, a prestar atenção em alguma coisa que o deixa com o coração aflito e com dúvidas a respeito de sua condição atual.
       Com frequência, Deus se aproxima de individuos que ouvem a Palavra pregada, sua grande ordenança para convicção, conversão e edificação. Assim, Ele golpeia os homens com a espada de sua Palavra, ferindo diretamente a raiz da concupiscência acalentada no peito, pegando o pecador de surpresa e o levando a ocupar-se com a mortificação e a abandonar a iniquidade em seu coração.
       Cada advertência específica a um individuo nessa condição é de inestimável misericórdia. Que imenso desprezo (e rejeição) a Deus tem o individuo que resiste a essas advertências!  Que infinita paciência tem o Senhor ao não repudiar essa pessoas nem jurar em sua ira que nunca entrará em seu descanso!
       O próprio Jesus disse a respeito do espírito maligno que: “Esta casta de demônios só sai pela oração e jejum” ( Mateus 17:21).  Se o pecado pelo qual você tem lutado é acompanhado de qualquer um desses sintomas perigosos; digo o mesmo que disse Jesus na citação de Mateus. E advirto-o: leve a serio e considere tudo o que foi dito sobre a concupiscência.
       No capitulo 7 do livro de Romanos, há a descrição do homem regenerado. No entanto, você pode identificar-se com alguma parte deste capitulo e encontrar as mesmas coisas existentes dentro de si e, inclusive, concluir que é um individuo regenerado. Cuidado! Você estará muito enganado em seu raciocínio. Seria a mesma coisa que argumentar: um sábio que fica doente e ferido pode até fazer alguma coisa tola; por isso, todo doente e ferido que faz alguma coisa tola é um sábio (silogismo[4], acréscimo nosso).
       Se você quiser evidências do que significa ser cristão, é preciso buscá-las na base daquilo que faz os individuos serem cristãos.  Aquele que possui esses sinais pode concluir com segurança: “Se sou cristão, sou um cristão miserável”. Mas se algum individuo for assim, precisará procurar outras evidências, se quiser ter paz.

Cap. 10 A Segunda Diretriz Específica.

       Seja consciente de: 1) A culpa do pecado traz perplexidade. Considerações para a ajuda proposta. 2) O múltiplo perigo: a) do endurecimento; b) da correção temporal; c) da perda da paz e das forças; d) da destruição eterna. Regras para o tratamento dessa consideração. 3) O mal que há no pecado: a) ao entristecer o Espírito; b) ao ferir a nova criatura.
       Diretriz 2: Tenha em mente a consciência nítida e constante, em primeiro lugar, da culpa; em segundo lugar, do perigo; e em terceiro, do mal, desse pecado que o deixa perplexo.
       Quanto a culpa do pecado: um dos enganos de uma concupiscência predominante é desculpar a própria culpa.  Isso é uma coisinha de nada!  Há inúmeros caminhos por meio dos quais o pecado desvia a mente da repreensão justa e devida de sua culpa. Um exemplo clássico é o caso de Naamã: “Nisso, perdoe o Senhor a teu servo. Quando meu senhor entra na casa de Rimom, para ali adorar, e ele se encosta na minha mão, e eu também me tenha de encurvar na casa de Rimom; (...), nisso, perdoe o Senhor o teu servo (2 Reis 5:18, acréscimo nosso)”.
       Suas emanações nocivas obscurecem a mente, de modo que esta não consiga juglar corretamente os fatos: justificativas desconcertantes, promessas amenizadoras, desejos tumultuados, propósitos falsos de abandonar o pecado, esperança de misericórdia, tudo isso contribui para perturbar a mente no ato de considerar a culpa de uma concupiscência predominante (Oséias 4:10-11).
       A culpa é realizada ao extremo nos não regenerados, mas também alcança e faz estragos em boa parte dos regenerados. O Senhor, esclarecendo por que seus tratos com Efraim não surtiam melhor efeito, disse: “Efraim é como uma pomba facilmente enganada e sem entendimento (Oséias 7:11).
       Salomao também escreveu a esse respeito, ao dizer que: “Vi entre os simples, descobri entre os jovens, um jovem falto de juizo; (...). Até que a flecha lhe atravesse o fígado, como a ave qeu se apressa para o laço e não sabe que ele está ali contra a sua vida (Provérbios 7:7,23)”. Por que esse jovem ( e a ave) se mostra tolo?  Porque age sem saber que isso lhe custará a vida.
       Outro exemplo clássico além de Naamã, é o caso do rei Davi. Seria possível ficar tanto tempo na culpa daquele pecado abominável (adultério e homicídio), se não tivesse inúmeras justificativas corrompidas, as quais o impediam de enxergar com clareza sua feiúra e sua culpa aos olhos da lei? Para fazê-lo enxergar o tamanho de seu terrível pecado, Deus usou o profeta Natã para despertá-lo (ou desmascará-lo).
       Portanto, esta é, em geral, a maneira de agir da concupiscência: ela escurece a mente para que não julgue corrtamente sua culpa e encontra muitas maneiras de se desculpar. Se você quer realmente mortificar o pecado deve: fixar na mente a idéia de quanto é grande a culpa do pecado. Precisamos observar algumas considerações para que isso aconteça em nossas vidas.
       a) A graça concedida por Deus ao cristão, enfraquece o poder do pecado: O pecado não tem mais domínio sobre a vontade do servo de Deus, embora ele possa pecar (e vai pecar), mas não exerce o mesmo poder que opera na vida do impio. Nós recebemos a graça divina para fazer totalmente o contrário.

Romanos 6:1-2. Que diremos então? Continuaremos pecando para que a graça aumente? De maneira nenhuma! Nós, os que morremos para o pecado, como poderemos continuar vivendo nele?

       A ênfase é dada ao plural “Nós”, portanto, sem dúvida, se continuarmos na pratica do pecado, nos tornaremos mais iniquos do que qualquer outra pessoa (impio). E o pior, o juizo começará conosco e será mais rigoroso do que o daqueles que não conhecem a Palavra do Senhor: “Portanto já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus; e, se começa por nós, qual será o fim daqueles que são desobedientes ao evangelho de Deus?  (1 Pedro 4:17, acréscimo nosso).  
       b) Deus vê imensa beleza e excelência nos desejos do coração de seus servos, mais do que nas obras gloriosas de outros homens. Sim, mais do que na maioria de suas realizações externas, contaminadas em maior grau pelo pecado do que os desejos e anseios de um coração cheio da graça. Entretanto, Deus também enxerga grande iniquidade na atuação da concupiscência do coração do cristão – mais do que nos atos famigerados dos impios e nos muitos pecados externos nos quais os santos porventura caiam.
       Nesse aspecto, Cristo, ao tratar dos pecados de seus filhos decaídos, vai á raiz da questão, sem levar em conta o que professam: “Conheço as suas obras” (Apocalipse 3:15), você é bem diferente daquilo que alega ser, e isso o torna abominável. Permita que essas considerações despertem-lhe a nítida consciência da culpa do pecado que habita em você, sem deixar espaço no coração para justificativas que amenizem o mal nem para desculpas, por meio das quais o pecado, imperceptivelmente, obtenha força e prevaleça.
       Considere os perigos da culpa: a) De se tornar endurecido o coração pela capacidade que ela tem de enganar. O pecado é traiçoeiro e enganoso, capaz de endurecer o coração contra o temor a Deus. O autor do livro de Hebreus adverte-nos quanto a isso: “Cuidado, irmãos, para que nenhum de vocês tenha coração perverso e incrédulo, que se afaste do Deus vivo. Ao contrário, encorajem-se uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama hoje, de modo que nenhum de vocês seja endurecido pelo engano do pecado” (Hebreus 3:12-13).
       Você, cujo coração era terno, que antes se quebrantava com a Palavra e com as aflições, vai tornar-se, segundo a linguagem profana de alguns, à prova de sermões e à prova de enfermidades. Você, que antes tremia diante da presença de Deus e da idéia da morte, ao ter de comparecer diante do Senhor, quando possuia mais certeza do amor divino do que agora, terá um espírito inflexível, que não se comoverá com coisas assim.
       Sua alma e seu pecado serão tocados e receberão avisos, mas você nao se preocupará. Conseguirá deixar de lado os deveres e as orações, o que ouviu e o que leu, e seu coração não será afetado em nada. O pecado se tornará coisa sem significado, e você o deixará passar sem lhe dar importância. Como está escrito no livro de Mateus 24:12: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos se esfriará” (acréscimo nosso).
       b) De uma grande correção temporal, que as Escrituras chamam de vingança, juízo e castigo (Salmo 89:30-33). Mesmo que Deus nos perdoe e nos absolva, não deixará de nos visitar com vara. O que significa dizer que as  consequências de seu ato pecaminoso virá ao tempo de Deus. Basta lembrar do caso de Davi.  Não adiantou fugir para o deserto.
       Será que não significa nada para você se Deus, por sua ira, matar um filho seu, arruinar seus bens, quebrar-lhe os ossos, deixá-lo ser escândalo e vergonha? Não significa nada se Ele castigar, arruinar e desgraçar outras pessoas por sua causa (ou culpa)? Não estou querendo dizer que Deus sempre mande todas essas coisas com ira contra seu povo. Deus nos livre!  Quero enfatizar que quando o nosso pecado provoca a ira de Deus, nós podemos descobrir que seus meios gir e operar podem ser bem amargos para nossa alma. Se você não tem medo disso, receio que esteja com seu coração endurecido.
       c) De perder a paz e a força para sempre na vida. Uma das grandes promessas da aliança da graça é ter paz com Deus e ter força para andar diante Dele. Sem sua consoladora presença, viver é morrer. De que vale a vida, se não for para contemplar a face de Deus em paz? Se não tivermos força para andar com ele? Certamente, desejos pecaminosos não mortificados privarão a alma dessas duas bençãos.
       Nota-se essa situação de forma evidente na vida de Davi. Ele, por várias vezes, se queixou de que seus ossos foram quebrados, sua alma ficou atribulada, suas feridas foram agravadas, tudo por causa de seu pecado não mortificado! Veja o que diz o profeta Isaías: “Por causa da sua concupiscência perversa fiquei indignado e o feri ...” (Isaías 57:17).
       Então eu pergunto; que paz existe para a alma enquanto Deus se esconde? Que força haverá, enquanto Deus nos fere? Talvez, Deus transforme em um terror e em um pavor para você mesmo e para o próximo. Talvez lhe mostre, todo momento, o inferno e a ira e o assuste e amedronte com a triste visão de seu ódio; assim, ficará com feridas abertas durante a noite, e a sua alma se recusará a ser consolada, de modo que prefira a morte à vida e deseje ser estrangulado.
       Sugiro que considere por um instante que, embora Deus não o destrua totalmente, poderá lançá-lo nessa condição, em que terá a percepção clara e vívida de sua ruina. Acostume seu coração a pensar sobre isso até que saiba qual é a consequencia de estar nesta condição. Não abandone esse exame até ter levado a alma a estremecer.
       d) Existe o perigo da perdição eterna. Observe primeiro que há uma ligação entre a permanência no pecado e a destruição eterna. Embora Deus resolva livrar alguns da permanência no pecado para não serem destruidos, não livrará da destruição nenhum dos que continuam no pecado (aqueles que  não se esforçam para deixá-lo, acréscimo nosso).
Hebreus 3:12. Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo.
(...)
Hebreus 10:38. Mas o justo viverá da fé, e, se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele.

       Dessa forma, enquanto alguém permanecer sob o poder contínuo do pecado, as ameaças de destruição e de separação eterna de Deus pesam sobre ele. Além disso, o individuo envolvido a esse ponto com o que foi descrito anteriormente, pelo poder de qualquer corrupção, não possui, nessa condição, nenhuma evidência clara e decisiva de sua participação na aliança, a qual é eficaz para livrá-lo de todo medo da destruição.
       É preciso termos cuidado com a Lei da Semeadura: “Porque o que semeia na sua carne da carne ceifará  a corrupção, mas o que semeia no Espírito do Espírito  ceifará a vida eterna” (Gálatas 6:8). Mesmo se o individuo tiver as melhores referências possíveis a respeito de si, é seu dever julgar que um mau caminho o levará à destruição. Não pensar assim é Ateísmo[5].
       Existe uma dupla condenação do eu humano. Em primeiro lugar, no tocante ao merecimento, quando a alma conclui que merece ser expulsa da presença de
Deus. Isso, longe de ser atuação da incredulidade, é efeito da fé. Em segundo lugar, no que se refere ao resultado, aos fatos, quando a alma chega à conclusão de que será condenada.
       Infelizmente, o fim merecido de um individuo que segue maus caminhos (sabe de seu pecado, mas continua a praticá-lo sem se esforçar para deixá-lo, acréscimo nosso), como ele mesmo deve concluir, é a morte, a fim de que seja provocado a fugir dela. Por isso, é uma consideração que a alma deve fazer, se realmente deseja libertar-se do embaraço de suas concupiscências.
       Considere os males do Pecado: refiro-me aos males presentes: o perigo diz respeito ao que está por vir; o mal está presente. Podem ser mencionados alguns dos muitos males que acompanham um pecado não mortificado.
       a) Entristece o Santo e bendito Espírito: o apóstolo Paulo, para dissuadir os cristãos de muitas concupiscências e pecados, oferece a seguinte motivação: “Não entristeçam o Espírito Santo de Deus, com o qual vocês foram selados para o dia da redenção” (Efésios 4:30).  Assim como um amigo terno e amoroso é entristecido pela maldade que recebeu do amigo, da parte de quem só esperava o bem, assim também acontece com o Espírito terno e amoroso, que escolheu nosso coração para habitar e ali fazer em nosso favor tudo quanto nossa alma deseja.

1 Coríntios 6:19. Ou não sabeis que o nosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?

       Para os que andam com Deus, não existe maior motivação e incentivo à santidade e à preservação do coração e do Espírito em toda a pureza do que este: que o bendito Espirito, comprometido a habitar neles, como templos de Deus que são, e a conservá-los dignos da Pessoa que neles habita, continuamente observa o que eles acolhem no coração e se regozija quando seu templo é conservado livre da contaminação.
       b) O Senhor Jesus é ferido de novo por esse pecado: Sua nova criatura é ferida no coração. Seu amor é frustrado e seu adversário, gratificado. Assim como abandonar totalmente a Jesus mediante o engano do pecado é crucificá-lo de novo e expô-lo à vergonha pública, também, quando alguém acalenta o pecado que Jesus veio para destruir, deixa-o ferido e magoado.
       c) O pecado anula a utilidade do individuo em sua geração: Suas obras, seus esforços, sua labuta raras vezes recebem a bênção de Deus. Caso se trate de um pregador, Deus quase sempre golpeia seu ministério de modo que trabalhe em meio a chamas e não seja honrado com qualquer sucesso nem com a realização de obra alguma para Deus. O mundo está repleto de cristãos professos pobres e inexpressivos: poucos são os que andam em alguma beleza ou glória! Quanto são estéreis e inuteis em boa parte do que fazem!
       Infelizmente, isso se deve, entre tantas razões, por que muitos deles acalentam em seu intimo concupiscências que lhes devoram o espírito, fixando como vermes na raiz de sua obediência, corroendo-a e enfraquecendo-a dia a dia. E, quando há algum sucesso, Deus fulmina os empreendimentos desses individuos. Ocupe seus pensamentos com essas considerações.

Cap. 11 Proposta a terceira diretriz:

       Encha a consciência com o peso da culpa pela indisposição moral que gera perplexidade. Os meios para isso. Quarta diretriz. Desejo veemente de livramento. Quinta diretriz. Algumas indisposições morais estão profundamente arraigadas no temperamento natural dos seres humanos. Considerações sobres essas indisposições: modos de lidar com elas. Sexta diretriz. Prevenção de ocasiões e de vantagens do pecado. Sétima diretriz. Oposição rigorosa às primeiras atuações do pecado.
       Diretriz 3: Deixe a consciência sentir o peso da culpa desse mal, não somente se considerando culpada, mas também sentindo o peso dos efeitos e dos reais distúrbios provocados por essa indisposição moral. Para o desenvolvimento correto dessa regra, oferecerei algumas diretrizes específicas.
       1) Adote o método de Deus na questão e comece com as proposições gerais, para, em seguida, observar as particulares:  a) Faça sua consciência sentir a culpa que nela se encontra à luz da retidão e da santidade da lei. Traga a lei de Deus para dentro da consciência; ponha sua corrupção diante dessa lei. Considere a santidade, espiritualidade, a ardente severidade, interioridade e a qualidade absoluta da lei. Pense em como é possível ficar diante dela.
       Ocupe sua mente com o temor do Senhor, em como é justo cada transgressão recerber a merecida recompensa. Diga a sua consciência que ela não conseguirá qualquer evidência de estar livre do poder condenatório da lei. Portanto, é melhor ponderar ao maximo o que a lei tem a dizer.
       Com toda certeza, aquele que alega, de todo o coração, estar liberto do poder condenatório da lei, mas que secretamente concede permissão, ainda que mínima, a qualquer pecado ou concupiscência, não é capaz de comprovar sua firmeza espiritual nem de demonstrar, de fato e de modo apropriado, estar liberto daquilo que tanto afirma estar livre.
       Qual é então, a finalidade da Lei? A obra apropriada da Lei é desmascarar a culpa do pecado, despertar e humilhar a alma por causa dele, ser um espelho que reflita exatamente o pecado (acréscimo nosso). Caso você se recuse a lidar com ela nessa base, não será pela fé, mas pela dureza de seu coração e pelo engano do pecado.

       Por isso, insisto para que escute sua consciência com diligência o que a lei fala em nome do Senhor a respeito de seu pecado e de sua corrupção. Se quiser mortificar sua corrupção, precisa conectar sua consciência à lei e protegê-la de todos os disfarces e exceções, até que ela reconheça a propria culpa com clareza e eficácia de entendimento, a fim de que a partir daí, conforme Davi, seu pecado sempre o perseguia (Salmo 51:3).
       b) Leve sua concupiscência ao evangelho, não para receber alivio, mas para ter convicção de sua culpa: olhe para Aquele a quem transpassou e amargure-se. Diga a sua alma: “O que fiz? Quanto amor, quanta misericórdia, quanto sangue, quanta graça desprezei e pisoteei! É assim que retribuo ao Pai o seu amor, ao Filho o seu sangue, ao Espírito Santo a sua graça?
       É assim que recompenso o Senhor? Como posso ficar sem me lançar ao pó? O que direi ao querido Senhor Jesus? Como erguerei a cabeça com confiança diante dele? Como escaparei, se negligenciar tão grande salvação? Minha alma foi lavada a fim de ter mais espaço para novas impurezas? Vou esforçar-me para tornar vão o propósito da morte de Cristo? Vou entristecer diariamente esse Espírito mediante o qual sou selado para o dia da redenção?
       Procure ocupar sua consciência diariamente com esses pensamentos e veja se ela consegue manter-se firme diante desse agravamento de sua culpa. Se ela não se rebaixar e se quebrantar na medida certa, receio que seu caso seja muito perigoso.

       2) Passe para as proposições particulares. Todos os benefícios dos princípios gerais do evangelho devem ser levados em conta, por exemplo, a redenção, a justificação e coisas semelhantes. Consider em especial, o amor pela alma expresso por eles mediante o agravamento da culpa da corrupção: 
       a) considere a paciência e a tolerãncia infinitas de Deus com você.  Considere como o Senhor poderia tê-lo tornado vergonha e opróbio deste mundo, objeto de ira para sempre. Como tem sido falso e traiçoeiro com Deus em muitas ocasiões, lisonjeando-o com os lábios, mas quebrando todas as promessas e compromissos com ele por meio do pecado contra o qual agora luta: “(...): Pois que este povo se aproxima de mim e, com  a boca e com os lábios, me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruido” (Isaías 29:13, acréscimo nosso).
       Deus, mesmo assim, poupou você em muitas ocasiões, embora tenha a ousadia de pôr a paciência dele à prova para ver até onde ele aguenta. Por que ainda peca contra o Senhor? Entretanto, acima de todas as suas expectativas, ele voltou a visitá-lo com amor, mas, mesmo assim, você continua a provocá-lo diante de sua glória?
       b) Quantas vezes esteve a ponto de se endurecer pelo engano do pecado, mas pela graça rica e infinita de Deus foi restaurado à comunhão renovada com o Senhor! Mas, novamente ocupou-se de prazeres, de caminhos e de convívio com companheiros de quem Deus se desagrada? Quer aventurar-se para ainda mais perto da beira do abismo do endurecimento?
       c) Todos os meios de Deus lidar com você pela graça, com disposições providenciais, livramentos, aflições, misericórdias, prazeres, tudo acontece aqui. Por isso digo, e por meios semelhantes, bombardeie sua consciência e não lhe dê sossego até sentir totalmente a culpa da corrupção que habita em você, até que tome consciência de sua ferida e se prostre no pó diante do Senhor.  Lembre-se:          Enquanto a nossa consciência tiver meios de aliviar-se da culpa do pecado, nossa alma nunca tentará fazer a própria mortificação.
       Diretriz 4: Estando assim afetado por seu pecado, passe em seguida a buscar o anseio e o desejo constantes de livrar-se do poder dele. Não permita que o coração fique um momento sequer acomodado com seu estado e condição atuais. No campo espiritual é bem diferente: o anseio  profundo de livramento é, em si, uma graça e tem grande poder para conformar a alma ao que deseja. A pergunta é: seu coração anseia ardente e apaixonadamente por libertação?
       Pode ter a certeza de que, se não ansiar por livramento, não o obterá. Isso deixará seu coração vigilante, em busca de todas as oportunidades de obter vantagem contra o inimigo, disposto a aceitar qualquer tipo de assistência para destrui-lo (muito parecido com o dependente  de drogas psicoativas: se ele quiser largá-la e pedir ajuda, ficará mais fácil obter êxito, acréscimo nosso). Portanto, coloque sua alma numa condição de ofegar e de ansiar continuamente. Lembre-se do caso do rei Davi.
       Diretriz 5:  Considere se a indisposição moral que deixa você perplexo nao está arraigada em sua natureza e não é acalentada, alimentada e ampliada por sua constituição. Sem dúvida, uma tendência a determinados pecados pode achar-se no temperamento e na disposição natural dos seres humanos. Nesse caso, considere:
       - Nem de longe isso deve atenuar sua culpa pelo pecado. Alguns, com uma conotação profana, atribuirão toda perversidade a seu temperamento. Não sei se outras pessoas usam a mesma consideração para se sentir livres da culpa de sua intemperança.  Por causa da queda e da depravação original de nossa natureza, qualquer pecado permanece em nosso temperamento natural. Caso você tenha especial tendência a determinado temperamento pecaminoso, isso não passa de manifestação da concupiscência original de sua natureza, que quer rebaixá-lo e humilhá-lo.
       – O que você precisa ter sempre em mente, em seu andar com Deus, é que seu temperamento e sua disposição concedem imensa vantagem ao pecado e a satanás. Sem vigilância, cuidado e diligência, certamente prevalecerão contra sua alma. Milhares de pessoas já foram lançadas precipitadamente no inferno por esse motivo.Na pior das hipóteses, elas teriam ido do mesmo modo; talvez com uma velocidade mais suave, menos provocadora e menos maligna.
       – Para a mortificação de uma indisposição moral tão arraigada na natureza humana, além de todos os meios e modos já mencionados, nos quais ainda se insistirá, existe um recurso notavelmente apropriado. É aquele usado pelo apóstolo: “Mas esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo”. Reduzir o próprio corpo à sujeição é uma ordenança de Deus que visa à mortificação do pecado (1 Coríntios 9:27).
       Talvez seja por isso que os romanistas (que desconhecem a justiça de Cristo, a obra de seu Espírito e a totalidade do assunto em pauta, por ignorarem a verdadeira natureza do pecado e da mortificação) atribuem todo o peso da mortificação às obras voluntárias, danto tanta ênfase às penitências que supostamente deveriam levar à sujeição do corpo, mas que podem ser, no entanto, uma tentação para negligenciar alguns meios de humilhação reconhecidos e determinados pelo próprio Deus.
       Infelizmente, a falta de compreensão correta e do devido desenvolvimento dessas considerações e de outras semelhantes fez surgir entre os católicos romanos um sistema de mortificação que seria mais bem aplicado a cavalos e a outros animais do campo do que a Cristãos (autoflagelo, acréscimo nosso). O melhor método, ordenado por Deus para essa mortificação, seria aplicar a nossa alma à participação no sangue e no Espirito de Cristo (com orações, leitura da Palavra de Deus, Jejuns etc.) como um esforço que deve ser feito para refrear a raiz natural de tal temperamento.
       Diretriz 6: verifique as ocasiões e as oportunidades que sua indisposição moral aproveita para exercer domínio e se manifestar. Vigie todas elas. O nosso Salvador recomenda a todos os seus discípulos que tenham vigilância constante: “E olhai por vós, para que não aconteça que o vosso coração se carregue de glutonaria,  de embriaguez e dos cuidados da vida, e venha sobre vós de improviso aquele dia” (Lucas 21:34).
       Davi tinha como propósito por em prática sua vigilância a todos os meios e táticas de sua iniquidade, a fim de lhes tomar a dianteira e de se levantar contra eles. É a isso que somos convocados com a ordem de considerar os nossos caminhos: “Também fui sincero perante ele e me guardei da minha inuiquidade” (Salmo 18:23). O ser humano costuma ter cuidado com demasiado zelo, quando o assunto é doença ou insdisposição física, a estação, a comida, o ar que lhe faz mal, entre outras coisas. E as coisas da alma têm menos importãncia? Saiba você, que quem ousa distrair-se com oportunidades de pecar, também ousará a pecar. Em outras palavras, aquele que se aventura nas tentações à iniquidade, tambem se aventurará na propria iniquidade (o ideal é não dar-se a oportunidade de pecar, acréscimo nosso).
       Diretriz 7: oponha-se poderosamente contra a primeira manifestação de sua indisposição moral, contra as primeiras idéias que surgirem. Não a deixe conquistar omenor terreno sequer, caso contrário, se ela tiver licença de avançar um só passo, dará mais um. O pecado é gradual, segundo escreve Tiago:

Tiago 1:14-15. Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá a luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.

       Por isso, é impossível determinar limites para o pecado. Ao perceber que a sua corrupção começa a embaralhar-lhe os pensamentos, oponha-se a ela com todas as suas forças, com mais indignação do que se tivesse conseguido todos os seus propósitos. Lute com toda a força contra o pecado, sem essa tomada de decisão, você não terá vitória.             Assim como o pecado conquista terreno nas afeições da alma para se deleitar nelas, também o faz no entendimento para aviltá-lo.

Cap. 12 A Oitava Diretriz.

Pensar na excelência da majestade de Deus. Proposta e considerada nossa falta de conhecimento de Deus.
       Diretriz 8: Faça e pratique meditações que o tornem humilde o tempo todo e com idéias acerca de seu valor limitado. Como segue abaixo:
1)  Reflita duranto longo período na excelência da majestade de Deus e em sua distância infinita e inconcebível. Isso o fará ver e enxergar a sua pequenez, o que fere profundamente a raiz de qualquer pecado que habita em você. Ao chegar á clara descoberta da grandeza e da excelência de Deus. Em Jó 37:22, lemos: “... Deus vem em temível majestade”. Por isso é que as pessoas da antiguidade pensavam que, se vissem a Deus, morreriam. Há vários exemplos de pessoas que se humilharam. Encha-se de pensamentos como esses para diminuir o orgulho de seu coração e para manter sua alma humilde. Pense muitissimo na grandeza de Deus.
2)  Refllita muito em sua falta de conhecimento de Deus. Embora você conheça o suficiente para se manter humilde e modesto, é pequeníssima a porção que você sabe a respeito de Deus!  Considere o seguinte  para abater o orgulho de seu coração: o que você sabe a respeito de Deus é infimo! Quão imenso é Deus em sua natureza!

Provérbios 30:2-4. Sou o mais tolo dos homens; não tenho o entendimento de um ser humano. Não aprendi sabedoria nem tenho conhecimento do Santo. Quem subiu aos céus e desceu? Quem ajuntou nas mãos os ventos? Quem embrulhou as àguas em sua capa? Quem fixou os limites da terra? Qual é o seu nome, e o nome de seu filho? Conte-me, se você sabe?

       Considere ainda, a fim de manter o coração em temor reverente e contínuo diante da majestade de Deus, que as pessoas com as mais sublimes e eminentes realizações, que desfrutam de comunhão mais próxima e de maior familiaridade com Deus, apesar dessa condição, pouco conhecem dele e de sua glória.  Deus revelou seu nome a Moisés, até mesmo os atributos mais gloriosos da aliança da graça, mais isso foi apenas o conhecer a Deus pelas costas. Tudo o que ele viu foi pocuo e insignificante em comparação com a perfeição e magnitude da glória do Senhor (Êxodo 34:5-6).
a) Sabemos tão pouco sobre Deus porque é assim que o Senhor deve ser conhecido: Podemos supor  que nesta vida alcançamos grandes conhecimentos, idéias sublimes e nobres a respeito de Deus. Mas, ai de nós!  Quando Ele nos levar à sua presença, clamaremos que nunca o conhecemos como ele realmente é; nem a milésima parte de sua glória, perfeição e bem-aventurança penetrou em nosso entendimento.  Noutras palavras, tudo leva a concluir até aqui que só vemos as costas de Deus, e não como Ele realmente é, estamos muito longe da perfeição de sua glória.
            Estamos tão longe de conhecer o suficiente sobre a pessoa de Deus que, não nos é possível ter idéia alguma a respeito Dele (podemos criar conceitos humanos sobre ele, usando imagens e impressões em geral, mas podemos cair no grande erro de criar nele ou fazer dele um ídolo e, assim, adorar a um deus criado por nós, e não ao Deus que nos criou).  A melhor idéia que possamos ter sobre a pessoa de Deus é que não é possível ter idéia alguma a respeito Dele. O máximo que podemos e conseguimos fazer é Crer e Admirá-lo.
            Temos que propagar  o que nos foi ensinado sobre Ele, que Deus é infinito, eterno, onipotente, onisciente, onipresente, mesmo sabendo quantas polêmicas existem a respeito desses atributos divinos. Conhecemos a Deus mais por meio de seus atos do que por aquilo que Ele é, mais pelo bem específico que nos faz do que por sua bondade essencial. Na verdade, temos apenas um vislumbre daquilo que não passa das costas da eternidade e do infinito (1 Coríntios 13:12).
            b) Sabemos pouca coisa a respeito de Deus, pois é exclusivamente pela fé que o conhecemos: esse conhecimento é reconhecidamente lastimável, fraco, inferior, obscuro, confuso, que por isso ninguém jamais glorificou a Deus conforme deveria; ao contrário, a despeito de todos os seus conhecimentos sobre Deus, os homens estavam, na verdade, sem Deus neste mundo. O conhecimento principal e único que temos de Deus e da revelação de si mesmo vem pela fé: “Quem dele se aproxima precisa crer que ele existe e que recompensa aqueles que o buscam” (2 Coríntios 5:7).
            Mesmo o que conhecemos somente pelas costas, conhecemos apenas pela fé. Tudo o que conhecemos e que sabemos sobre Deus, só conhecemos dessa maneira e é infinitesimal (infinitamente pequena) e obscura. É verdade: “Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido” (João 1:18). A excelência de um Cristão não é ter ampla compreensão das coisas, mas sim daquilo que de fato compreende. Talvez, bem pouco, aquilo que vê à luz do Espírito de Deus, de forma salvífica e transformadora da alma. E é isso que nos dá comunhão com Deus.
            Nunca neste mundo alma alguma alcançará a totalidade daquilo que pode ser deduzido e descoberto na Bíblia, de modo que, embora o caminho da revelação seja claro e evidente no evangelho, sabemos pouco mesmo do que é revelado. Lembre-se: que a nossa alma se acostume a ter pensamentos reverentes sobre as grandezas e a onipotência de Deus, pois dessa forma, permanecerá continuamente vigilante contra qualquer comportamento indevido.

Cap. 13  A Nona Diretriz:

            Quando o coração ficar inquieto por causa do pecado, não declare a ele nenhuma  paz, até que Deus o faça. Ter paz sem detestar o pecado não é sábio; assim como a paz que declaramos em nós. Diretrizes a respeito dessa questão. A inutilidade de declarar paz levianamente. Como declará-la num só caso e não de modo geral.
            Diretriz 9: é triste o individuo enganar a propria alma a esse respeito. Todas as advertências que Deus faz, com ternura, à nossa alma, tendem a impedir esse grande mal de declarar paz a nós mesmos sem fundamento. Com essa diretriz, quero ajudar os cristãos a evitá-la e a reconhecer quando a adotaram. Observe:

1)    Já que a grande prerrogativa e soberania de Deus é conceder graça a quem quer (ele tem misericórida de quem quer – Romanos 9:15; de todos os filhos dos homens, chama a quem quer e santifica a quem quer), assim também aos chamados e justificados, a quem salvará, reserva a si mesmo o privilégio de declarar paz a quem quer, mesmo àqueles a quem já concedeu sua graça.
2)    Assim como Deus dá graça a quem quer, também é prerrogativa de Cristo aplicá-la à consciência. Podemos nos enganar e nos perturbar por nada ou nos lisonjear por motivos falsos, mas Ele é o Amém! A testemunha Fiel! O que Ele fala de nosso estado e condição, sem duvida, é verdadeiro. Dele se declara que não julga segundo o que os olhos vêem, nem de acordo com a aparência externa, nem segundo qualquer coisa sujeita a engano, conforme nossa tendência, mas julgará e determinará cada causa conforme é de fato (Isaías 11:3).

Quero aplicar essas duas observações, propondo algumas regras pelas quais pessoas poderão saber se Deus lhes está declarando  Paz ou se Estão declarando paz a si mesmos:
           
a) Os Homens: quando estes, declaram paz a si mesmos e ela é acompanhada da esperada aversão pelo pecado que lhe perturba a paz, aborrecendo-se com ele.  Quando estão feridos pelo pecado, inquietos, perplexos, sabendo que não há cura senão nas misericórdias de Deus por meio do sangue de Cristo, confiam nele e nas promessas de sua aliança. Entretanto, se sua alma não for levada à máxima aversão ao pecado que lhes causou inquietação, isso é curar a si mesmos, em vez de ser curados por Deus.
Não passará de um vento grande e forte do qual o Senhor está próximo, mas não está nele. Quando os homens olharem realmente para Cristo, a quem transpassaram (e sem isso não há cura nem paz), chorarão, lamentarão por ele exatamente por essa razão, detestarão o pecado que o traspassou. Quando comparecemos diante de Cristo pedindo cura, a fé o olha como aquele que foi traspassado (olha para a Cruz, acréscimo nosso).
Três coisas devem ser observadas aqui: – Quando a fé vai buscar a cura e a paz, olha especialmente para o sangue da aliança, para os sofrimentos de Cristo, pois por suas feridas fomos sarados (Isaías 53:5);  – Quando procuramos a cura, é para suas feridas que devemos olhar, e não para sua história ou métodos católicos romanos, mas para o amor, a bondade, o miimportstério e o designo da cruz; – Quando procuramos a paz, o castigo que ele sofreu deve ocupar nossa atenção.
Que nós, seres humanos, quando quisermos a cura e a paz, possamos pedi-las ao Médico dos Samedicos, que o façamos do modo correto, que nos inquiete o coração nas promessas da aliança. Entretanto, quando a paz for declarada, se não for acompanhada do ódio e da repulsa ao pecado – ferida que originou a inquietação – não existirá a paz criada por Deus, mas somente a que produzimos.
b) Os Indivíduos: quando estes, medem sua paz pessoal de acordo com as conclusões a que suas convicções e principios racionais levam; trata-se na verdade, de uma paz falsa e que não permanecerá. Por exemplo; o individuo foi ferido pelo pecado, sem convicção desse pecado na consciência; não viveu de modo reto, à altura do evangelho; não está tudo bem entre Deus e a sua Alma. Ele tem luz espiritual, sabe o caminho que tem de seguir e como sua alma foi curada em ocasiões anteriores.
Ele vai em busca das promessas de Deus, e descobre uma ou mais cuja expressão literal é diretamente apropriada à sua condição. Diz para si: “Deus fala nessa promessa; com ela farei um curativo adequado para minha ferida”. Ele aplica a Palavra da promessa à sua condição e fica tranquilo e se acomoda. Esta é uma situação parecida com o vento grandioso e forte: “o Senhor está perto, mas não está nesta manifestação”. Não foi obra do Espírito, aquele que nos convence do pecado, da justiça e do juízo (João 16:8).
Existem tres tipos de vida: a vegetativa – são os seres que crescem, se desenvolvem e se nutrem naturalmente, ou seja, de forma involuntária ou inconscientemente. Alguns seres só tem este tipo de vida. a sensitiva -  ela inclui a vida anterior, são os seres que se retraem com todo e qualquer toque (palavras, situações), ou seja, pessoas que se milindram facilmente ou que possuem grande suscetibilidade. a racional ou inteligente – são seres que usufruem das anteriores, isto é, crescem e tem suscetibilidade, mas tem uma vida muito racional, agindo de modo apropriado moldado à princípios (acréscimo nosso).
O mesmo acontece aos indivíduos no tocante as coisas de Deus: algumas pessoas são meramente naturais (vegetativas) e racionais, mas outros têm uma convicção adicional com iluminação; outros, ainda, são verdadeiramente regenerados. Por isso, quando Deus fala, não somente há em suas palavras verdade capaz de atender a convicção de nosso entendimento, mas também essas palavras fazem bem, trazem aquilo que é doce, bom e desejável à vontade e às emoções. Por elas, a alma volta a seu repouso (Salmo 116:7).
c) Declaramos paz a nós mesmos quando o fazemos levianamente. O profeta lastima que isso ocorra entre alguns mestres (pastores, padres etc.; acréscimo nosso). Assim acontece com algumas pessoas que fazem da cura de suas feridas uma obra leviana:”Eles tratam da ferida do meu povo como se não fosse grave” (Jeremias 6:14). É preciso ouvir a Palavra de Deus e adicioná-la a fé, para que sejam incorporadas à propria natureza da promessa, para então realmente fazem bem a alma.
Se você já teve uma ferida na consciência, acompanhada de fraqueza e de inquietude, da qual agora está liberto, como isso aconteceu?  “Eu confiei nas promessas do perdão e da cura e, assim, achei a paz”.  Cuidado, pois você pode ter se apressado demais, fazendo-o de modo superficial. Se não tiver se alimentado da promessa, a fim de misturá-la com a fé, para conseguir ter todas as suas virtudes difundidas na alma, você o fez apenas levianamente, por isso verá sua ferida irromper (surgir) de novo dentro de pouco tempo, e saberá que não foi curado.
d) Quem declara paz a si mesmo sobre determinado assunto e, ao mesmo tempo, tem outro mal de não menos importância pesando-lhe sobre o espírito, a respeito do qual não está se tratando com Deus, esse individuo clama por paz quando nao há paz.  Explico melhor: certo homem negligenciou um dever repetidas vezes, talvez quando dele se esperava, com toda a razão, que a cumprisse. Sua consciência fica perplexa e a alma ferida; seus ossos não tem quietude em razão de seu pecado; busca a cura e acha a paz.
Ao mesmo tempo, talvez o mundanismo, o orgulho ou qualquer tolice que deixa o Espírito de Deus excessivamente entristecido pode se achar no intimo daquele individuo, e tais pecados nem o perturbem, nem ele, a eles. Que esse individuo não pense que uma minima parte de sua paz provém de Deus. Por isso é bom que os homens respeitem todos os mandamentos d eDeus. O Senhor nos justificará de nossos pecados, mas não justificará o menor pecado em nós; Deus tem olhos puros demais para contemplar a iniquidade.
e) Quando os homens declaram paz à consciência por conta própria, é raro que Deus fale de humilhação à alma: a paz de Deus humilha, quebranta, assim como no caso de Davi (Salmo 51:1). Ele nunca tinha passado por tanta humilhação, até quando o profeta Natã o exorta severamente sobre seu pecado terrível, mas recebeu a noticia deste mesmo profeta de seu perdão.
Quando receberemos o consolo de uma promessa que nos inquiete o coração no que diz respeito a alguma ferida (pecado)? Resposta: Geralmente, Deus fala quando quer, mais cedo ou mais tarde. Conforme já disse: Deus pode fazer isso no instante do cometimento do proprio pecado, e com poder tão irresistível que a alma acaba cedendo. Às vezes, Deus nos fará esperar mais um pouco, porém, mais cedo ou mais tarde, enquanto estamos pecando ou nos arrependendo, seja qual for a condição de nossa alma, quando Deus Fala, deve ser ouvido.
Como saber quando Ele fala? Resposta: aquele que teme ao Senhor e tem a fé em seu coração sabe quando Ele fala.  Use o seguinte critério: quando Ele fala, fala como nenhuma pessoa falou. Fala com poder e, de uma maneira ou de outra, faz o seu coração arder, assim como no caso dos dois discípulos a caminho da cidade de Emaús (acréscimo nosso).

Lucas 24:32. E disseram um para o outro: Porventura, não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava e quando nos abria as Escrituras?

            A fala de Cristo fará bem a sua alma, mesmo que venha a humilhá-lo, purificá-lo e for útil para as finalidades das promessas de enchê-lo de amor, quebrantá-lo, santificá-lo e levá-lo à obediência, promovendo o esvaziamento de si, entre outras coisas. Procura ficar mais atento à voz do Senhor, pois Ele fala constantemente conosco.

Cap. 14  A Utilidade Geral das Diretrizes Anteriores:   

            A grande diretriz para realizar a obra em pauta. Aja segundo a fé em Cristo: as várias maneiras de fazer isso. Propõe-se a consideração da plenitude de Cristo para o alívio. Grandes expectativas da parte de Cristo; os fundamentos dessas expectativas; sua misericórdia; sua fidelidade. Essas expectativas na prática: por parte de Cristo; por parte dos cristãos. A fé deve ser exercida principalmente na morte de Cristo (Romanos 6:3-6). A obra de Cristo em todo esse tema.
           
Diretrizes para a obra propriamente dita:

            Diretriz 1: Coloque a fé em Cristo em ação para matar o pecado. Seu sangue é o supremo remédio para as almas enfermas com o pecado. Viva nisso e morrerá vencedor. Sim, você vai, mediante a boa providência de Deus, viver para ver sua concupiscência morta a seus pés. Mas talvez pergunte: Como a fé em Cristo deve operar para esse propósito?  De vários modos.
1)  Pela fé, encha a alma de pensamentos sobre a provisão reservada em Jesus Cristo. O fim e propósito disso é que todas as suas concupiscências, a própria concupiscência na qual está emaranhado, sejam mortificadas pela fé. Embora você não seja capaz em si e nem por si, de vencer sua intemperança e esteja realmente a ponto de desmaiar, em Jesus Cristo existe suficiência para aliviá-lo (Filipenses 4:13).
Este foi o caso do Filho Pródigo, ficou fraco, sentiu-se desanimado, mas sabia que na casa de seu pai havia pão. Mesmo estando longe, não deixou de se sentir aliviado e fortalecido ao lembrar que ali havia pão (Lucas 15:17-18).
                 Por a fé em prática com base na plenitude que há em Cristo para nos suprir é um modo notável de permanecer em Cristo, pois é pela fé que somos enxertados em Cristo e nele permanecemos (Romanos 11:19-20). Para que você possa exercitar sua mente com pensamentos para te ajudar, comece a falar diariamente os que seguem abaixo:

               - Sou uma criatura pobre e fraca, instável como a água, não consigo ser excelente em nada.
               - Minha alma tornou-se como terra ressecada e habitação de chacais.
- Sou miserável, pois fiz promessas e as quebrei; votos e compromissos tornaram-se algo como nada.
- Sem o socorro e ajuda do Senhor, estou perdido e serei obrigado a abandonar totalmente a Deus.

Entretanto, embora seja esse seu estado, que as mãos decaidas se levantem e os joelhos fracos se fortaleçam. Olhe para o Senhor Jesus Cristo, que tem toda a plenitude da graça em seu coração, toda a plenitude do poder em sua mão: nele há provisão suficiente para dar alívio e auxílio; ele pode socorrer minha alma abatida e moribunda e me fazer mais do que vencedor (Romanos 8:38).  Ele pode transformar essa habitação de chacais, esse coração tão cheio de concupiscências abomináveis e de tentações abrasadoras em lugar de relva e de outras plantas para si mesmo (Isaías 35:7).
2)  Pela Fé, anime o coração na expectativa do alívio da parte de Cristo. Nesse caso, o alívio é como a visão do profeta: “Pois a visão aguarda um tempo designado; ela fala do fim, e não falhará. Ainda que demore, espere-a; porque ela certamente virá e não se abrasará” (Habacuque 2:3). Embora a demora lhe pareça um pouco prolongada, enquanto permanecer debaixo de sua aflição e perplexidade, o alívio certamente virá no tempo determinado pelo Senhor Jesus – o melhor momento.
Anime seu coração com a firme expectativa de alivio da parte do Senhor Jesus, olhando com os olhos fitos à mão de seu Senhor e sua alma ficará satisfeita. Certamente o livrará, destruirá a concupiscência e você terá paz. Somente olhe e busque ao Senhor, aguardando com paciência quando a sua mão o fará (Isaías 7:4,7-9; Salmo 123:2).  Cristo disse aos seus seguidores: “Sem mim, vocês não podem fazer coisa alguma”. Essa fala se refere especialmente em relação à purifiação do coração para deixá-lo livre do pecado. Lembre-se: Se você não receber alivio da parte dele, você nunca receberá alívio algum.
Considere a fidelidade de quem prometeu, pois, assim, você será animado e confirmado ao esperar nessa expectativa de alívio. Deus nos diz que sua aliança conosco é como as ordenanças do céu, do sol, da lua e das estrelas, que tem percursos fixos. O socorro da parte de Cristo virá na estação certa, como o orvalho e a chuva na terra ressequida.
3)  Pratique a sua fé especificamente na morte, no sangue e na cruz de Cristo. A mortificação do pecado surge especificamente da morte de Cristo.  Essa é uma das finalidades preeminentes da morte de Cristo. Ele morreu para destruir as obras do diabo: “Ele se entregou por nós a fim de nos remir de toda a maldade e purificar para si mesmo um povo particularmente seu, dedicado à prática de boas obras” (Tito 2:14).
            Cristo amou a igreja de tal maneira que se entregou por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, e para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável (Efésios 5:25-27).

  Conclusão de Nossa Parte:

            Esse clássico do século XII continua bem atual em nossos dias e, de forma muito simples, posso resumi-lo com poucas palavras, extraídas da própria Palavra de Deus. Vejo que o nobre autor deixa de forma muito clara que, independentemente do tempo de cristianismo, todo seguidor de Cristo deve buscar diariamente mortificar seus pecados. E, assim, insiro um texto Bíblico que reputo como pertinente ao assunto desta grande obra literária: “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe que não caia” (1 Coríntios 10:12).
                O povo Israelita (os escolhidos de Deus) e os da cidade de Corintos (como muitos crentes de nossa era), acreditavam que poderiam se entregar ao pecado e que não correriam nenhum perigo. Ledo engano, haja vista que John Owen, em todo o transcorrer desse livro, nos impulsiona e exorta a vivermos em busca constante da mortificação dessa carne “fétida”.  Como também o nosso Deus, que deixa muito bem claro em sua Palavra, que caso não abandonemos o pecado (o mortifiquem), o juízo divino nos aguarda.


[1]Pietismo. Movimento de renovação da fé cristã que surgiu na Igreja luterana alemã em fins do Século XVII, defendendo a primazia do sentimento e do misticismo na experiência religiosa, em detrimento da teologia racionalista.


[2] Puritano. Religiosos protestantes que se dispuseram a interpretar melhor do que ninguém a letra da Bíblia. 2. Caráter de pessoa que aparenta grande seriedade e rigor de princípios.
[3] Capelão. Sacerdote responsável pelos ofícios religiosos de uma capela. 2. É um assistente Religioso e Social. Seu papel fundamental é cuidar e zelar da sociedade, contribuindo intensamente para a saúde Espiritual e Emocional do ser humano.

[4] Silogismo. Raciocínio dedutivo estruturado formalmente a partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por inferência uma terceira (conclusão). Por exemplo: “Todos os homens são mortais; os gregos são homens; logo, os gregos são mortais”.
[5] Ateismo. Falta de crença em Deus. 2. Não acreditar que Deus existe.

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